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DOCES E SALGADOS

10/06/2019 07:22 por Redação

Moro agiu em conjunto com Dallagnol na Lava Jato, diz reportagem

Atuação coordenada fora dos autos dos processos fere a Constituição e o Código de Ética da Magistratura; leia a matéria bombástica do "The Intercept"

“Exclusivo: chats privados revelam colaboração proibida de Sergio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato”. Com esta manchete, que estampa sua primeira página desde o final da tarde deste domingo (9), o site Intercept Brasil trouxe revelações bombásticas sobre suposta atuação conjunta entre o ex-juiz federal Sérgio Moro e membros do Ministério Público em ações realizadas no âmbito da operação Lava Jato.

Trata-se de uma série de reportagens expondo diálogos vazados entre os membros da força-tarefa da Lava Jato e entre o procurador Deltan Dallagnol e Sergio Moro, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro. “O único papel do Intercept Brasil na obtenção desse material foi seu recebimento por meio de nossa fonte, que nos contatou há diversas semanas (bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que não houve “captação de conteúdo”) e nos informou de que já havia obtido todas as informações e estava ansiosa para repassá-las a jornalistas”, diz o site de notícias, que não identifica a fonte que forneceu o material.

Segundo o The Intercept, as reportagens foram produzidas a partir de arquivos “enormes e inéditos” – incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens. ”Esse é apenas o começo do que pretendemos tornar uma investigação jornalística contínua das ações de Moro, do procurador Deltan Dallagnol e da força-tarefa da Lava Jato – além da conduta de inúmeros indivíduos que ainda detêm um enorme poder político e econômico dentro e fora do Brasil”.

“A atuação coordenada entre o juiz e o Ministério Público fora dos autos dos processos (ou seja, das reuniões e documentos oficiais que compõem um processo) fere o princípio de imparcialidade previsto na Constituição e no Código de Ética da Magistratura”, observa a consultoria política Arko Advice.

De fato, a Constituição brasileira estabeleceu o sistema acusatório no processo penal, no qual as figuras do acusador e do julgador não podem se misturar, assinala o The Intercept. Nesse modelo, cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alegações de acusação e defesa, sem interesse em qual será o resultado do processo. Mas as conversas entre Moro e Dallagnol demonstram que o atual ministro se intrometeu no trabalho do Ministério Público, atuando informalmente como um auxiliar da acusação.

As reportagens mostram, entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre seu desejo de impedir a vitória eleitoral do PT e tomaram atitudes para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma secreta com os procuradores da operação para ajudar a montar a acusação contra Lula. “Tudo isso apesar das sérias dúvidas internas sobre as provas que fundamentaram as acusações e enquanto o juiz continuava a fingir ser o árbitro neutro neste jogo”, afirma o The Intercept.

De olho na eleição - Segundo a reportagem, os procuradores tramaram para impedir que o Partido dos Trabalhadores ganhasse a eleição presidencial de 2018, bloqueando uma entrevista pré-eleitoral com Lula com o objetivo explícito de afetar o resultado da eleição.

"Os procuradores, que por anos garantiram não ter motivações políticas ou partidárias, manifestaram repetidamente nos chats a preocupação de que a entrevista, a ser realizada a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições, ajudaria o candidato à Presidência pelo PT, Fernando Haddad. Por isso, articularam estratégias para derrubar a decisão judicial de 28 de setembro de 2018, que a liberou – ou, caso ela fosse realizada, para garantir que fosse estruturada de forma a reduzir seu impacto político e, assim, os benefícios eleitorais ao candidato do PT".

Leia a série de reportagens aqui.

O "The Intercept" é uma publicação da First Look Media, lLançada em 2013 pelo filantropo e fundador do eBay, Pierre Omidyar, com a proposta de ser uma empresa multimídia dedicada a apoiar vozes independentes em jornalismo investigativo, cinema, arte, cultura, mídia e entretenimento. O "The Intercept Brasil", com conteúdo em português, foi lançado em julho de 2016. Seu editor é o jornalista e advogado constitucionalista norte-americano Glenn Greenwald, de 52 anos, um dos autores da série sobre Moro e Dallangnol, ao lado de Betsy Reed e Leandro Demori.

Greenwald ficou conhecido mundialmente após ajudar o ex-analista de sistemas Edward Snowden a revelar informações secretas obtidas pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês). A série de reportagens sobre as revelações de Snowden, publicadas no jornal britânico The Guardian, rendeu diversos prêmios a ele e à sua equipe, entre eles o Pulitzer, considerado o Oscar do jornalismo.

Leia mais: Moro nega 'anormalidade' em troca de mensagens com Dallagnol.

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