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28/01/2016 10:48 por Redação

Próximo passo da política monetária será de baixa, ainda neste ano

Ata do Copom sinaliza que o movimento pode ocorrer dentro de seis meses, diante do forte ajuste recessivo em curso

Depec-Bradesco*

De forma resumida, com base na leitura da ata do Copom, não vemos a porta aberta para qualquer possibilidade de aumento dos juros em breve. Como o tom para o cenário econômico virá de fora, parece-nos que o próximo passo da política monetária será de baixa. Mas isso ocorrerá dentro de uns seis meses. A ata, assim, sugere que a chance de mudança de rumo na leitura dos membros do Copom na próxima reunião é muito pequena. Seguimos com a expectativa de que fecharemos o ano com Selic em torno de 13,25%. A economia mundial continuará deflacionária e no Brasil, a ancoragem de expectativas, virá da brutalidade do ajuste recessivo em curso.

Leia: Incertezas justificam monitoramento da economia, diz ata do Copom.

Em linha com o comunicado, anunciado na semana passada, as incertezas do cenário global foram decisivas para a manutenção da taxa de juros estável em 14,25%. Em especial, o documento divulgado hoje pelo Banco Central reforça várias vezes a desaceleração da economia chinesa e seus impactos, principalmente, sobre os preços dos ativos. De fato, neste início de ano, tem sido notável a queda dos preços das commodities, com destaque para o petróleo.

Compartilhamos dessa visão mais cautelosa do cenário externo, tendo em vista que esperamos continuidade da perda de dinamismo da China e entendemos que os preços das matérias primas deverão se acomodar em patamares baixos, não só pela moderação da demanda como também pela oferta que segue elevada.

Em relação à economia doméstica, as expectativas do Copom são de intensificação da distensão do mercado de trabalho, o que assegurará a convergência da inflação para a meta de 4,5% em 2017. Nossa visão é que a recessão em curso no Brasil será muito importante para os próximos passos da autoridade monetária neste ano, abrindo espaço para cortes da Selic ainda neste ano, levando-a a 13,25%.

Assim, o Bacen não deixou de reafirmar seu compromisso de médio e longo prazo com o cumprimento da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Mas reconhece, seja por razões internas ou, mais recentemente, por externas, que as chances de a inflação acelerar neste ano são baixas, em um ambiente econômico depressivo, hiato do Produto extraordinariamente negativo, maior nível histórico de estoques de produtos finais, menor patamar já registrado de pedidos em carteira, menor nível já visto de utilização da capacidade instalada da indústria e nível muito baixo de confiança das famílias e dos empresários. E, por ora, não enxergamos sinais convincentes de uma retomada da atividade em um horizonte de curto prazo.

O Copom revisou novamente sua projeção para os preços administrados neste ano, de 5,9% para 6,3%, levando em conta os reajustes de tarifas de ônibus urbano. Com isso, tanto no cenário de referência como no de mercado, as projeções para a inflação para este ano se elevaram em relação ao estimado na reunião anterior e permanecem acima da meta de 4,5%. Para 2017, no cenário de referência, a projeção encontra-se ligeiramente acima da meta, mas recuou em relação à considerada na última reunião, e no cenário de mercado, também permanece um pouco acima da meta (e foi ajustada para cima na comparação com a projeção vigente no reunião passada).

Como já comentado, a principal alteração em relação às comunicações anteriores – que traziam uma visão mais focada nas expectativas inflacionárias – se pautou na piora do cenário global, intensificada neste início de ano. As preocupações concentram-se na economia chinesa – cujos ruídos na condução da política econômica, o forte e rápido ajuste dos mercados acionários e a saída de capitais do país – e seus efeitos sobre as demais economias e os preços dos ativos. Com isso, o Copom entende que – a despeito da política de preços de combustíveis – a queda do preço do petróleo deverá impactar toda cadeia petroquímica, com impactos benignos sobre a inflação.

Ressalva, contudo, deve ser feita a alguns riscos. Em especial, a despeito do efeito deflacionário garantido pelos menores preços de commodities, as preocupações com uma depreciação cambial mais intensa devem ser consideradas. Da mesma forma, temos uma visão mais cautelosa sobre a intensidade da recessão da economia brasileira – mais forte do que a apresentada pela autoridade monetária.

Assim, o Copom deve optar pela manutenção da Selic nos próximos meses, atentando-se à evolução do cenário. Como expresso no documento, “Para estes membros, faz-se necessário acompanhar os impactos das recentes mudanças nos ambientes doméstico e externo no balanço de riscos para a inflação, o que, combinado com os ajustes já implementados na política monetária, pode fortalecer o cenário de convergência da inflação para a meta de 4,5%, em 2017”.

Ao longo deste ano, entendemos que a força da recessão da economia brasileira – acentuada pelo contexto global muito deprimido – deverá aumentar a convicção do BC de que há espaço para redução da Selic. Por isso, acreditamos que a taxa de juros encerrará este ano em 13,25%.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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