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A economia não para de surpreender os profissionais obrigados pelo ofício a ensaiar o futuro. A nova surpresa veio com o resultado das vendas do varejo em junho em nível muito mais forte que o esperado. No chamado “varejo restrito”, conceito do IBGE que exclui carros, peças, motos e materiais de construção, as vendas cresceram 1,5% em junho sobre maio, quando haviam recuado 0,8%, e avançaram vigorosos 9,5% sobre igual mês de 2011. A projeção média do mercado indicava queda de 0,2% no mês e expansão de 6,5% sobre junho do ano passado. O resultado foi mais expressivo considerando o conceito do “varejo ampliado”, puxado pelo incentivo da desoneração temporária de 10% do IPI sobre o preço dos carros novos (cujas vendas subiram 16,4% entre maio e junho, maior aumento da serie nessa pesquisa do IBGE) e a recuperação do segmento de material de construção (com aumento de 1% das vendas no mês, depois da retração de 6,6% em maio). O agregado do indicador ampliado do comércio cresceu 6,1% em junho e vistosos 12,3% em relação a 2011, vindo de +4,9% em maio, segundo a mesma base de comparação anual. Dos oito segmentos do varejo que o IBGE monitora, sete tiveram aumento de vendas em junho, inclusive o de supermercados, para o qual a Abras, associação das empresas do setor, apontara queda de 1,5% sobre maio. Na medição do IBGE, mais abrangente, o segmento de supermercados, alimentos, bebidas e fumo registrou aumento de vendas de 0,8%. Para o economista Fernando Montero, tais resultados são disseminados, o que, diz ele, “desmente a ideia do deslocamento dos gastos para os ramos incentivados (carros e eletrodomésticos) e continua atestando a capacidade de consumo das famílias”. Artes do emprego, que segue forte, apesar de o ritmo de criação de postos de trabalho apresentar alguma acomodação, como constatam os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) para julho. Foram criadas em termos líquidos 142,5 mil vagas de trabalho no mês, 1,38% acima do saldo em junho de 2011. Na série com ajuste sazonal da consultoria LCA, o saldo líquido de empregos aumentou de 68,3 mil em junho para 111,7 mil (contra 141 mil em julho de 2011). A razão das surpresas A redução do ímpeto do emprego é justificável pelo mau momento da indústria de transformação, pelo relativo aperto do crédito devido à inadimplência (que parece estar cedendo) e pela demografia (sim, o país começa a envelhecer). Mas o relevante é que o emprego está crescendo, o que pressiona os salários e, portanto, sustenta o consumo. A interação entre a renda, função do emprego apertado, o crédito e a demografia, com o aumento da população idosa em relação aos jovens, ainda está mal elaborada pela maioria dos analistas, levando a tais disparates mensais entre o resultado projetado e o realizado. Isso também leva alguns leitores a indagar onde está a crise no país. A digestão das dívidas Duas questões têm de ser consideradas ao se avaliar os problemas da economia. Parte deles tem raiz conjuntural, ou seja, é do momento, como o comprometimento da renda com prestações da casa, do carro zero, encavalado com novos gastos virtualmente fixos, além da alimentação e saúde, como celular, banda larga, TV paga etc. O governo assumiu desde 2009 a indução do consumo, apelando tanto ao marketing de massas como aos incentivos fiscais e de crédito, o que empanturrou o orçamento do consumidor. A digestão está em curso e, uma vez completada, o consumo - que a rigor jamais cedeu - voltará à plena forma. Espera-se que sem ferver, para evitar outra onda de inadimplência e o risco de bolhas especulativas como houve nos EUA. A indústria preocupa O que preocupa na economia é a incapacidade de a indústria atender a demanda, já que lhe faltam condições de competividade para barrar as importações. Quando a têm, é porque desnacionalizou um pedaço de sua cadeia de produção. Isso significa que, sem melhorar os fatores de competitividade dos manufaturados, sobretudo os bens de consumo, o reforço da demanda agregada (como o que virá do investimento das novas concessões de logística) tende a engrossar os vazamentos para o mercado externo. E, assim, ampliar os déficits externos, aumentando nossa dependência das exportações de commodities. É esse o risco. Descompasso da produção O governo resolveu enfrentar os problemas estruturais, desistindo não é bem o caso, mas deixando de por todas as fichas na expansão do consumo. O programa de concessões de rodovias e ferrovias já vai nessa direção. Tais medidas terão algum efeito sobre o ritmo do crescimento da economia, mas não sobre o descompasso da produção. Não há como sair desse enrosco sem um arranjo pela macroeconomia ou pela política industrial. A manufatura brasileira também precisa de foco, já que ela é que encerra todos os fatores dinâmicos que movimentam o setor de serviços, o carro-chefe do crescimento e do emprego. Tal conclusão é aceita tranquilamente no debate econômico até nos EUA, onde o descompasso industrial foi mais severo do que está sendo no Brasil. Os responsáveis pela formulação econômica não discordam. Só que o necessário para energizar a indústria não é tão fácil quanto promover as concessões, depois de superado o veto da esquerda.
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