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Os dados mais recentes sobre o comércio e a produção industrial no mundo, compilados pelo CPB Netherlands Bureau, instituto do governo da Holanda que monitora em primeira mão tais indicadores, sinalizam que a recessão global está à vista, embora ainda não estabelecida. Em volume, o comércio global em maio, o último mês para o qual há números consolidados, cresceu 2,5%, vindo de estabilidade em março e queda de 0,8% em abril. Mas, em dólar, o movimento encolheu 1,5% em maio, acentuando a retração que fora de 1,1% em abril, depois de um miúdo crescimento de 0,1% em março. A circularidade destes dados significa que a balança comercial dos países aumentou em volume e diminuiu em receita, reforçando o que se constata nas principais economias, inclusive no Brasil: a falta de potência do comércio exterior para compensar a desaceleração do mercado interno. É algo dramático para países como a China, o Japão e a Alemanha, ou regiões como a Zona do Euro e a Ásia, além dos produtores de commodities, como petróleo e minérios, dependentes de exportações para mover a demanda interna como o ar que respiramos. Se a regressão do comércio persistir por mais alguns meses, não há como não conceber a recidiva em grau maiúsculo da crise global, que está completando cinco anos. O agravamento, contudo, não é linear. Na métrica do comércio por volume, as economias avançadas (EUA e Japão), exceto a Zona do Euro, aumentaram 3,1% as importações, e as emergentes, com destaque para as asiáticas, e, entre elas, a China, 5,3%. Mas o desequilíbrio global voltou a agravar-se, pois o mundo emergente exportou 3,6% mais em maio, contra aumento de apenas 0,2% das exportações das economias avançadas. Neste bloco, só os EUA, com aumento de 0,4%, não soçobraram, já que a Zona do Euro, com -0,1%, e o Japão (-2,7%) continuaram com as exportações prostradas. Os pequenos aumentos na medida do comércio por volume desaparecem na conta em valor. As exportações em dólares caíram 1,2% em maio, com as perdas distribuídas entre as economias avançadas (-1%) e as emergentes (-1,4%), evidenciando um cenário em que todos os países querem exportar ao mesmo tempo e importar apenas o que é essencial. A desinflação é geral Um ambiente de concorrência acirrada, além de desesperada por quem tem margem (como China) para alijar a produção de rivais, só leva à ruína em massa – jamais a soluções colaborativas. A implicação está bastante visível nos principais preços. Segundo a pesquisa do CPB, no caso dos manufaturados, o preço médio recuou 0,2% em março, 0,3% em abril e 1,2% em maio. Evolução assim é típica de recessão. O preço do segmento de energia, que inclui carvão e petróleo, caiu 8,3% em maio e 3,9% em abril, anulando o aumento de 4,2% em março. O quadro se repete para o que o centro holandês lista como outras matérias-primas (minérios, sobretudo), com quedas de 2,1% e de 1,1% - respectivamente, em maio e abril. Em março houve alta de 0,5%. Retração sincronizada A produção industrial no mundo acompanha a anemia do comércio, mas graças à não derrocada do setor extrativo a evolução é oscilante. A produção da indústria cresceu 0,5% em maio, vindo de queda de 0,7% em abril e aumento de 0,2% em março. Esse sobe-desce é atribuído às economias emergentes. Elas alternaram, entre março e maio, taxas de +0,4%, -1,2% e +1,1%. Nas avançadas, onde prepondera a manufatura, a indústria ficou estagnada em março e abril e recuou 0,3% em maio. A ligação entre tais resultados e o quadro de aperto da indústria é imediata, ao se considerar que a retração no mundo se dá de modo sincronizado, gerando capacidade instalada ociosa - e esforços ou para sua ocupação ou para a desova de estoques em mercados abertos ou despreparados para a competição externa, o caso do Brasil. A salvação pela soja A balança comercial tem se mantido favorável ao Brasil, apesar do cenário ruim no mundo, graças à exportação de soja, sobretudo para China, nosso maior importador de commodities. E também à estiagem nos EUA, maior exportador mundial de grãos. As exportações totais para a China cresceram 5,6% no primeiro semestre, com as vendas de soja avançando 45,3%. As de minério de ferro, que se reveza com os bens agrícolas como primeiro item das exportações, caíram 20,4%. A agricultura e os minérios salvam o déficit comercial crônico da indústria e de serviços. De janeiro a julho, o superávit agrícola, de U$ 39,3 bilhões (8,8% maior que em igual período de 2011), ficou acima do déficit de US$ 29,3 bilhões dos demais setores, protegendo um bom pedaço das contas externas do país. Se a China acentuar seu mau momento econômico, nem isto estará garantido. Tais fatores são determinantes para a economia brasileira evitar um declive maior. Paradoxos da economia Nenhum país, por mais fechado que seja o seu mercado, consegue ter um desempenho melhor que a média, quando o viés geral é para baixo. Esse é o paradoxo da política econômica brasileira: tanto faz o que estimular, consumo ou investimento, que nos dois casos boa parte do gasto (ou seja, da demanda) assim gerado vazará para importações. O desequilíbrio entre o custo de produção no Brasil e em economias concorrentes e a avançada desnacionalização das cadeias produtivas, (usuária de componentes e insumos importados como estratégia contra a baixa competitividade devido a impostos, à infraestrutura arcaica e aos salários) faz a importação capturar parcela crescente da ação do governo para defender o emprego e a renda real. A indústria mirra e cresce a fatia dos importados sobre o consumo. Ela atingiu 24% no segundo trimestre, na pesquisa da Federação das Indústrias de São Paulo - o maior nível dessa série, que começa em 2003. Assim será enquanto o mundo estiver girando em falso.
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