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Se a repercussão dos eventos em curso no mundo a um ritmo cada vez mais célere levar o tempo costumeiro para ser assimilada no Brasil, quando abrirmos os olhos mais cavalos selados terão passado, e logo vamos estar, novamente, relegados a plateias do sucesso alheio. Tais mudanças são surpreendentes. O caso mais recente: a MindTree, de Bangalore, Índia, dos maiores exportadores de software no mundo, anunciou na última terça-feira que vai aumentar as contratações nos EUA para preencher os quadros técnicos em “quatro ou cinco” centros de desenvolvimento de tecnologia de informação (TI) a serem abertos no território sabe de quem? Uhm... Dos EUA, seu principal mercado. Os EUA por muitos anos assistiram as empresas fecharem as portas e migrarem a sua produção ou os serviços, num fenômeno conhecido por outsourcing, para países como Índia, que já foi destaque por atrair interessados nos salários vis pagos a uma mão-de-obra bem formada e preparada para criar programas de computador e operar call centers. Num trabalho de garimpo industrial, Mike Collins, autor de Saving American Manufacturing, estima que os EUA perderam 5,9 milhões de empregos com o fechamento de 45,5 mil fábricas, boa parte realocada para a Ásia, implicando o corte de 2 pontos percentuais da fatia da indústria no PIB desde 2000, estando agora em 12%. Mas vem subindo desde o piso recorde de 11% de participação no PIB em 2009. A crise derrubou os salários nos EUA, antecipou novas tecnologias de produção, liberou a produção de energia em áreas antes vedadas, fez o governo criar subsídios e doar capital a negócios emergentes, tudo contribuindo para elevar a produtividade da economia. Ela está fraca, mas parece pronta para um salto tão logo o desendividamento do consumidor conclua o seu ciclo. A volta do emprego é chave. Visto daqui, o problema é que, sem os graves constrangimentos dos EUA, nossa competitividade é até pior. Mas sem termos entrado no clube dos desenvolvidos nem acumulado a massa de conhecimento que torna os EUA atrativos até para os tigres da Ásia e da sigla BRIC. Índia emprega nos EUA Os salários na Índia continuam miseráveis, como na China, embora estejam subindo. Esses pequenos ganhos já levaram negócios em que a diferença entre o lucro e o prejuízo é medida em centavos de dólar, como a produção de fios, calçados e vestuário, a sair da China e da Índia e migrar as fábricas para vizinhos mais pobres, como Vietnã, Camboja e Bangladesh. Fabricantes de autopeças e de eletrônicos vão para o México, aproveitando o acordo de livre comércio com EUA. Para os EUA mesmo é coisa nova, pelo menos no caso de TI. Devido a razões regulatórias e cambiais, montadoras de carros do Japão e da Alemanha há tempos fabricam nos EUA. Não tiveram prejuízo, apesar de o custo ser maior que nos mercados de origem. Adaptaram-se com técnicas de produção e muita automação poupadora de empregos. Inovação sem empregos O mundo gira e o capital roda. Elas logo farão o mesmo no Brasil, em resposta ao elevado custo de produção, ao salário crescente e à exigência de maior conteúdo nacional nas linhas de montagem. É um movimento invisível, inevitável e ruim para a geração de operários atual, trocada por menos e mais bem pagos postos de perfil técnico. O problema não é evolução tecnológica. Nada a detém, como tentou, ingenuamente, o ludismo - o movimento surgido na Inglaterra do fim do século XVIII voltado a quebrar máquinas para salvar empregos. Desanimador é quando a parcela da juventude que torce o nariz para o conforto da estabilidade do emprego público, optando arriscar-se em negócios nascentes, geradores de empregos promissores em áreas essenciais para o país, como as tais startup de internet, mas não só, vai embora porque sai mais em conta abrir empresa nos EUA. Ou, se já estabelecida, contrata o desenvolvimento de software em Portugal, por exemplo, que murcha economicamente, como outros nacos da Europa, apesar de seu alto grau de desenvolvimento. Sem polinizar o saber O que é bom para Portugal ou EUA não necessariamente o é para nós. Essa onda precoce de outsourcing dispersa a engenhosidade duramente apreendida no Brasil antes de polinizar seu conhecimento pelo país. Mas quem há de censurá-los? O serviço Payscale.com avalia a média salarial de gerente de TI no Brasil em pouco mais de R$ 11 mil ao mês. Em Portugal, em R$ 6 mil. É menos lá porque o mercado já era pequeno para tanta gente graduada e sumiu com a crise. É mais aqui porque o mercado é grande e a oferta de técnicos é escassa. Agora, feche os olhos e imagine a educação deficiente, o nanismo político, a ganância da burocracia. O resultado disso está em nosso entorno. A pesquisa é tributada Não pode dar certo quando se discute até ficar rouco o aumento de verba pública para a educação, aprovada na Câmara para a enormidade de 10% do PIB, não o que se quer dela e o que fazer para melhorá-la. Só depois os dinheiros necessários poderiam ser estimados. E o que dizer de o gasto no Brasil com pesquisa e desenvolvimento não ser dedutível do Imposto de Renda, tornando a alíquota efetiva maior que a tributação nominal? Trataremos disso noutro artigo. Por ora importa destacar que desestimulamos na prática o investimento e a inovação, segundo estudo da consultoria KPMG, enquanto até os EUA estão dando a volta por cima - e com ajuda de quem nossa diplomacia supõe ter parceria estratégica, como a China e a Índia. A consequência é que a produção de software, o fator distintivo de um país avançado, custa tanto no Brasil quanto na Inglaterra e é só 4% menos que seu desenvolvimento nos EUA. Vamos abrir essa agenda.
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