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Brasília atravancada pela onda de greves do funcionalismo federal já faz parte da paisagem do Planalto Central. Tão triviais quanto a mudança das estações e ainda mais previsíveis em ano de eleições, a nova leva paredista pode estar produzindo na sociedade sentimentos hostis ao funcionalismo onde sempre houve alguma simpatia difusa. As lideranças sindicais do funcionalismo parecem não entender nem o momento difícil da economia nem reconhecer os generosos aumentos salariais e a dispendiosa revisão dos planos de carreira aprovados no governo do presidente Lula, em alguns casos com escalonamentos até 2012, com o pressuposto de que os ganhos reais recuperavam as perdas acumuladas e asseguravam uma folga para os anos seguintes. Para uma cidade campeoníssima no ranking de renda per capita, com larga vantagem sobre São Paulo, a capital financeira e empresarial do país, é bizarro os sindicatos mobilizarem o funcionalismo para lutar contra perdas de poder aquisitivo, sem que haja tal percepção em outras regiões, até nas mais empobrecidas como o Nordeste. O Brasil pela perspectiva da Brasília tumultuada por greves parece a Espanha desesperada, com seus 24% de desemprego, que não passa de 6% aqui, a menor taxa da história, e contradiz o que diz a revista alemã Spiegel, numa serie de artigos sobre a governança de países: que o Brasil se tornou uma “nação modelo”. A síntese: “Uma batalha rigorosa contra a corrupção e a pobreza propiciou novas liberdades e mais crescimento [econômico] e igualdade [social]”. Os alemães, como os europeus em geral, sentem-se tentados a buscar novas referências desde que caíram na espiral da decadência. Quanto mais exótica a comparação, ou humilhante, melhor para este tipo de crônica, já que implica uma crítica subliminar às elites europeias. O grevismo do setor mais aquinhoado entre os assalariados do país, comparado à Europa, pode ser lido como um alerta. Foi por décadas seguidas de expansionismo fiscal e políticas de renda sem nexo com a produtividade que a Europa afundou ao se defrontar não bem com a orgia financeira de Wall Street, mas com a competição da China. É o caso de indagar se tal sindicalismo está alheio às causas da crise. Docilidade no tucanato Conforme pesquisa de Carlos Góes, da Universidade John Hopkins, os dados do Dieese (centro sindical de estudos) revelam que as greves do setor público cresceram 138% entre 2007 e 2011, anos em que Lula mandou o Tesouro Nacional abrir o cofre ao funcionalismo. E daí? Daí é que quanto mais é atendido, mais tal sindicalismo demonstra um apetite reivindicatório que contrasta com a relativa docilidade nos oito anos do tucanato. É como um jogo com resultado garantido. O salário médio real (isto é, abatida a inflação) do funcionalismo federal, segundo Góes, aumentou 28,2% desde 2003, acelerando-se a partir de 2005. Em contraponto, o salário médio real no setor privado cresceu 6,9%, quatro vezes menos. E, mesmo assim, foi dos maiores e mais rápidos aumentos de renda no mundo nestes anos. Maior renda per capita As divergências na escala social entre o funcionalismo público e o trabalhador de empresas privadas aparecem em várias métricas. Tome-se o Produto Interno Bruto (PIB) de Brasília, conforme a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). O PIB per capita de Brasília, empurrado pelos salários do funcionalismo, era, em 2010, de US$ 31,2 mil (ou de R$ 5,2 mil ao mês ao câmbio de R$ 2), contra US$ 10,9 mil na média nacional (ou R$ 1,8 mil ao mês) - puxada para cima por incluir, obviamente, também a renda dos servidores. Pelo número de integrantes, entre ativos e inativos, é ai que está uma das raízes da concentração de renda no país, apesar de o antigo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ter tentado desviar o foco, atribuindo essa feia chaga, basicamente, a algumas centenas de famílias milionárias beneficiárias do rentismo ora em reversão. Pressão a golpe de vara O paredismo federal não sugere, contudo, que seja meramente ação reivindicatória por salários e condições de trabalho, mas um repto contra as novas práticas de gestão que a presidente Dilma Rousseff vem tentando implantar no governo, com métodos que permitam aferir a produtividade individual e de setores, associados ao pagamento de gratificação por desempenho. O igualitarismo salarial, por exemplo, é uma das bandeiras dos professores das universidades federais. Também há oposição às razões alegadas pelo governo para tratar com reservas esses pleitos, sobretudo devido à crise externa. Dilma a combate apoiando o investimento e com desonerações para, como diz, assegurar “emprego para a população mais frágil, sem direito à estabilidade”. Fazê-la ceder a golpes de vara pode ser temerário. Dilma está mal servida A presidente mostrou firmeza ao baixar decreto autorizando ocupar as áreas paradas com funcionários requisitados a outras instâncias. Virou questão de honra aos sindicatos derrubar tal improviso contra a falta de regulamentação de greves no setor público. Dilma está mal servida, pois representada por assessores “firmes” pela delegação, não porque digam endossar as razões de governo. Seu viés concentrador levou ao escapismo dos subordinados, ao atribuir o que é polemico à vontade dela, não a um plano maior de governo. E não só. Os sindicalistas têm recebido apoio de deputados da base aliada, mesmo do PT, embora, quando chefa da Casa Civil, ela tenha enviado projeto de lei ao Congresso criando teto para gastos com o funcionalismo. Se o presidente da Câmara, Marcos Maia, que é do PT, pusesse o projeto em votação, muita confusão talvez fosse evitada. Qual é mesmo a oposição que tanto incomoda o ex-presidente Lula?
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