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A efeméride da grande crise que começou precisamente em agosto, cinco anos atrás, com uma lei votada pelo Congresso dos EUA para aliviar o ônus das hipotecas, enquanto Wall Street assistia com a sua empáfia costumeira a primeira onda de demissões do Banco Bear Stearns, prenúncios do que estava para vir, mereceu pouca atenção. Digo pouca, porque houve uma exceção: o jornalista Felix Salmon, da Reuters, lembrou tais eventos, mas para registrar, cáustico e desalentado, que tem mais cinco anos de crise adiante antes que a ferida aberta pelo estouro das bolhas de especulação, que ainda provoca novas vítimas mundo afora, esteja cicatrizada. Da Europa, que se via virtuosa, à China, cuja economia seria inexpugnável. O tombo tem sido devastador desde então, de nada servindo outros eventos premonitórios, como a insolvência em março de 2008 de um sobrevivente da Grande Depressão de 1929, o Bear Stearns, tragado pelo JP Morgan Chase numa operação pilotada pelo Federal Reserve. Que logo depois, sob a ira da opinião pública e do Congresso pelo apoio aos “tubarões” de Wall Street enquanto o país mergulhava na recessão, deixou quebrar o Lehman Brothers, em setembro de 2008. Esta história não acabou. Só mudam o enredo e o lugar. Hoje é na Zona do Euro, cada vez mais desconfiada do futuro. Amanhã poderá ser na China, o gigante vitaminado pelas exportações até se tornar a segunda potência econômica do mundo em 2010. A China luta para escapar do redemoinho que envolve a sua clientela do Ocidente. E o faz em meio à ascensão de novos líderes em 2013, numa transição, comme il faut aos regimes fechados, cheia de perigos e perfídias. Mas talvez estejamos sendo severos demais com as possibilidades em gestação, não com o julgamento do que aconteceu. As sequelas, como diz Salmon, vão perpassar a década, talvez mudar o curso da história, dependendo do que fará ou poderá fazer a liderança em ascensão na China e nos EUA, onde os eleitores decidirão no voto, em 4 de novembro, se dão uma segunda chance ao presidente Barack Obama ou põem em seu lugar o republicano Mitt Romney. Risco está nos impasses Com qualquer um deles, a mudança será para manter tudo como está se permanecer o impasse político atual, com a Câmara dominada pelo extrato mais conservador dos republicanos e o Senado em poder dos democratas de Obama. Já a luta interna na China se dá entre o grupo reformista, que propõe mais mercado, e o da burocracia das empresas e bancos estatais, adepta de maior planificação - jeito mais curto, segundo já expressou o primeiro-ministro Wen Jiabao, de a economia capotar pelas disfuncionalidades do sistema. Essas transições, assim como a eleição em que a chanceler Angela Merkel terá o seu estilo austero de governar avaliado em 2013, são obstáculos a desdobramentos mais agressivos contra a crise até que se completem. A característica a todas é que envolvem as economias líderes e também dominantes, únicas capazes de movimentar o mundo - ou terminar por enterrá-lo -, devido ao seu porte e dinamismo. Urgências mudam em 2013 Até que esses processos estejam concluídos, vai-se gerir o dia a dia, talvez com mais outros trilhões de dólares, renminbis e euros emitidos pelos bancos centrais de EUA, da China e da Zona do Euro, enquanto o fermento fiscal estiver canalizado para os déficits e a rolagem das dívidas soberanas. Um nível mínimo de expansão nos EUA e na China e a solvência da Espanha e da Itália são as urgências. O que virá depois, já entrando em 2013, dependerá de como cada um desses gigantes, Alemanha e Japão incluídos, estará. E, não menos relevante, a tolerância social à dieta apertada aplicada em todos. Rota virá de EUA e China Com consentimento social, é possível que as transformações sejam mais curtas. Sem elas, virá o imprevisível. Em meio aos extremos, decisões como a limitação de risco e maior exigência de capital da banca, implicando, segundo estima o Fundo Monetário Internacional (FMI), enxugar dos balanços dos bancos europeus US$ 4 trilhões nos próximos dois a três anos, soam risíveis. Tamanho desendividamento condiciona a Europa e o setor privado a corte equivalente. No way. Hoje, com governos humilhados pela crise, prevalecem autocracias, com o vento de banda dos problemas do dia indicando a direção. Ao fim das transições, sobretudo nos EUA e na China, o bom senso e a democracia onde for possível poderão ter novas chances. A sorte também conta, como a emergência das fontes não convencionais de óleo e gás nos EUA, aliviando o mercado para a China. Nós estamos entre ambos. Em meio a “fogo amigo”, apesar das balas perdidas. Os tais danos colaterais A muitos, o vulto dos problemas tem efeito paralisante. Omite-se que problemas tais como de dívidas implicam o outro lado. Estudo do Boston Consulting Group, por exemplo, estima em US$ 21 trilhões o volume de dívidas em excesso no mundo em relação à sua medida sustentável, que seria de 180% do PIB global. Chega-se a falar de uma taxa de 30%, aplicada once for all, sobre a riqueza financeira nos EUA, Europa, Inglaterra (US$ 74 trilhões), para fulminar o problema. Mas as multinacionais guardam cerca de US$ 5 trilhões em caixa, o dobro do tal excesso de dividas, usando-se um múltiplo conservador de oito vezes. Com os “argumentos” certos, os governos podem armar várias combinações para essa equação. É a linha de Obama.
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