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Uma pesquisa internacional sobre os pontos cruciais para melhorar a competividade da indústria não deixa dúvidas, se por acaso elas existissem, de que a atividade manufatureira pede ajuda no Brasil, e algumas deficiências levarão décadas para ser sanadas. Numa amostra de 11 países desenvolvidos e emergentes entre os mais industrializados do mundo, os executivos pesquisados de empresas de setores como o automotivo, têxteis, alimentos, bebidas e máquinas e equipamentos concordam, numa proporção de 70% das respostas, que a indústria é a mais importante atividade econômica de uma nação. Talvez esteja nessa resposta um juízo hegemônico ao empresariado industrial, mais forte que a identidade de interesses do mundo das finanças, que perpassa países tão diversos como Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, México, Espanha, Inglaterra e EUA – a amostra pesquisada, entre março e abril, pela consultoria IDC Manufacturing Insights, de Massachusetts. Em termos globais, a preocupação com a produtividade do trabalho é consensual, sem distinção entre estágio de desenvolvimento e o grau de aderência à crise que castiga a todos, ocupando o topo da lista de prioridades comuns, com 74% de indicações. Mas há variações bem extremas entre os países pesquisados. E é ai que o setor industrial brasileiro revela a sua absurda perda de competitividade – a razão das últimas decisões de política econômica adotadas pelo governo, como a desvalorização cambial, a queda dos juros e as desonerações. Entre todas as medidas comparativas, a mais chocante, tratando-se de Brasil, é a da escassez de mão-de-obra treinada e bem formada. No Brasil, tal deficiência foi apontada por 68% dos executivos. A taxa mais próxima é a do México, mas com um distante placar de 44%, seguido do da China, com 36%, EUA (26%) e Alemanha (22%). Grave é que em todos, afora México e um pouco menos EUA, já há o fenômeno do envelhecimento da sociedade, problema que ainda não nos aflige. Outra questão que também distingue negativamente o Brasil trata da necessidade de infraestrutura moderna. Essa demanda foi considerada como muito ou extremamente importante por 88% dos ouvidos no Brasil - a maior incidência da pesquisa. Por qualquer padrão de referência – seja econômico ou factual, como o dessa pesquisa –, os resultados da indústria no Brasil são abatidos pela baixa competitividade, não dela (ou não, sobretudo, por causa dela), mas da economia em geral. O horror da logística A falta de infraestrutura de qualidade foi assinalada por 82% dos pesquisados na China, Índia, México e Espanha, e apenas por 66% nos EUA, país em que costumeiramente se fala do sucateamento de sua infraestrutura de transportes. Tal percepção no Brasil, no entanto, é realista, haja vista o plano de concessão de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos que a presidente Dilma Rousseff vai anunciar. O apoio do governo, portanto, é relevante para o sucesso de quem se aventura a produzir? O material divulgado não fala de Brasil. O destaque para a dependência do poder público coube às empresas da China, com 82% de respostas afirmativas. As dos EUA estão no outro extremo, com apenas 42%. Tudo óbvio: a economia é planificada na China, com uma pitada de mercado, ocorrendo o contrário nos EUA. Quem repudia o batente A pesquisa também provoca espécie quanto ao resultado sobre a taxa de absenteísmo no trabalho. A maioria das respostas dos executivos da Austrália (42%), Canadá (48%), Inglaterra (46%) e EUA (44%) foi no sentido de que a falta de assiduidade não é um problema para as suas empresas. Mas o item foi assinalado como um “grande” problema pelos entrevistados no Brasil (24%), França (26%) e México (22%). A atividade industrial registra perda histórica de participação no PIB em todo o mundo. Mas 88% dos dirigentes do setor indicaram que recomendariam aos filhos fazer carreira no setor, variando de 90% nos EUA, a taxa mais alta, a 70% na China, a mais baixa. Automação está no radar Embora vivendo diferentes estágios de industrialização - que ainda é crescente na China, dá sinais de retornar nos EUA e é residual na Austrália, afora o setor mineral, e Inglaterra -, os executivos das principais economias com base industrial deram respostas coerentes. Faz sentido, por exemplo, a atenção com produtividade, treinamento e aperfeiçoamento contínuo da força de trabalho estar à frente dos investimentos em tecnologia, à base de 68% a 63%. Há inovação onde a mão-de-obra alcança índices de excelência. O resto é modismo. Conforta, por isso, saber que 82% dos dirigentes da indústria no Brasil atribuem “muita ou extrema importância” à produtividade no trabalho. E também preocupa, dependendo do ponto de vista. A nota subliminar é que se delineia um próximo, intenso viés de automação. Chaga da educação ruim Outro dos muitos debates escassos no Brasil, sequela da reduzida preocupação da academia e do governo em estudar em profundidade os movimentos do capital, é sobre os cruzamentos entre as tendências da industrialização com poucos empregos, muita automação e baixos índices de carbono. Essa nova indústria, que renasce nos EUA e vem sendo construída na China sobre os escombros das plantas antigas – já sendo forte a substituição no setor siderúrgico –, não está no radar do investimento e da política industrial no Brasil. “Com os países desenvolvidos enfrentando salários em queda e altos níveis de desemprego, as nações emergentes não podem ter o trabalho de baixo custo como estratégia de crescimento”, avalia o diretor sênior da Kroton, firma global de gestão de pessoal, Gregg Gordon. No Brasil, o custo de pessoal não é baixo há bom tempo, comparado à Ásia, mas sem a contrapartida da produtividade devido à má formação escolar. Essa chaga só será superada noutra geração.
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