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A economia real, da produção e do consumo, dificilmente anda junto das oscilações do mercado de capitais. Este revida o sempre nervoso noticiário em tempo real das redes digitais. Aquela, os fatos mais físicos que virtuais, como a produção da indústria e o pagamento de salários. Ambos os movimentos interagem, mas não pelas razões que impelem fortunas digitais a mudar de galho e de árvore no mercado. É assim que na quinta-feira as bolsas tombaram no mundo e os juros dos papéis de dívida subiram, devido à decepção com a negativa do italiano Mario Draghi de que o Banco Central Europeu (BCE) dirigido por ele estivesse pronto para comprar títulos soberanos rejeitados pelo investidor. Uma semana atrás, ele mesmo criara a expectativa. A queda foi mais forte do que a decepção pudesse justificar e veio o movimento contrário na sexta-feira, com bolsas disparando, juros recuando e novas razões alegadas. É como se os analistas tivessem a última palavra nestes tempos de submissão dos Tesouros europeus. O fato: foram criados 163 mil empregos em julho nos EUA, um número acima do esperado (100 mil) e o maior desde fevereiro, apesar de a taxa de desemprego ter subido um cisco, de 8,2% em junho para 8,3%. Para o tipo de operações instantâneas, interconectadas 24 horas, a situação do emprego nos EUA é só um algoritmo para arbitragens com as taxas de diferentes ativos e prazos. Não há preocupação com a situação da economia. Tanto que os tais analistas se apressaram a buscar mais razões para a reversão de ânimo. Draghi, por exemplo, fora “incompreendido”, segundo um deles disse à agência Reuters. Pode ser. Mas ele foi preciso ao delimitar o alcance do suporte do BCE: os países abandonados pelos mercados, como a Espanha, têm de pedir formalmente ajuda à União Europeia. Só então o BCE comprará os papéis com juros superlativos pela expectativa da insolvência. Funciona assim: o governo eleito transfere a soberania fiscal para os eurocratas sem voto de Bruxelas em troca de empréstimos; salda a dívida vincenda com eles; implanta uma recessão para gerar receita que pague o serviço da dívida; os bancos se safam, além de passar o mico dos papéis encalhados ao BCE. É uma graça perversa. A banca tem mesmo de relaxar e exalar otimismo nos mercados. A lógica fria do credor Nenhum dos dinheiros emprestados por Bruxelas, envolvendo um fundo capitalizado com aportes dos 17 países da Zona do Euro, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI), pode ser usado pelo governo encrencado para investir em projetos que ponham a economia a andar. Não há na Europa um plano de reforma estrutural, só a fria lógica do credor, com o devedor ajoelhado no milho e o outro lhe dizendo o que tem de fazer para devolver o que tomou emprestado. A fórmula só gerou ruína. A economia da Grécia regrediu ao nível de 2007, portanto, anterior à crise. E os eurocratas cobram mais austeridade de Atenas, já que a economia em recessão não produz as receitas necessárias e o país, já acudido duas vezes, recebendo 240 bilhões de euros de empréstimos, precisa de outros 40 a 50 bilhões. Como sempre, não para irrigar a economia, só para rolar dívida. Continente da escuridão A única coisa que se pode dizer a favor dos tais resgates é que os empréstimos evitam a quebra sistêmica da banca europeia, com todos os desdobramentos depressivos para o resto do mundo. Não resolvem, contudo, nenhuma das causas estruturais que empurram o continente cada vez menos das luzes para o lado escuro da história econômica. A falta de solução real, não as contábeis, que até para a banca só servem para ganhar tempo, turva economias sólidas, como a Coréia do Sul, cujas exportações são tidas como o “canário da mina” sobre o ar da economia global pela mesma gente aliviada com as migalhas da melhora do emprego nos EUA e a exegese das intenções de Draghi. O lado esquerdo dessa gente treme, enquanto o direito finge relaxar. Repentes dos doidivanas As exportações da Coréia do Sul, basicamente de bens de capitais e de consumo, têm forte correlação com o nível da demanda doméstica e do investimento industrial na China, EUA e Europa, os seus maiores clientes. E o que elas apontam? Que o ciclo do comércio global está piorando, não melhorando, segundo Duncan Wooldridge, economista do UBS. As exportações coreanas caíram 9% em julho em relação a 2011 e 3,8% sobre junho, em termos nominais. E 3% e 2,8%, respectivamente, na medida em volume. “Trata-se de desaceleração significativa sobre um semestre que já fora fraco”, diz ele. Para quem tem pés no chão, tal informação vale mais que os repentes dos doidivanas do mercado. A responsabilidade do BC Não deve surpreender, diz o economista do UBS, se os números do comércio global forem “mais decepcionantes nos próximos meses”, o que, certamente, será considerado pelo Banco Central ao tratar da taxa de juro básica na reunião do dia 29 - dois dias antes, lembra o economista Fernando Montero, do anúncio pelo IBGE do desempenho do PIB no segundo trimestre. Ele prevê outro número desidratado. O PIB deve ter crescido apenas 0,5% sobre o segundo trimestre de 2011 e 0,3% sobre janeiro a março, prevê. A Selic terá espaço para ceder a 7,5%, ainda que a inflação esteja pressionada, agora pelo preço de alimentos. O cenário ficará mais claro com o resultado do comércio em junho, que o IBGE divulga dia 16, e a prévia do PIB no mesmo mês, conforme o índice prospectivo do BC. “A tônica do BC tem sido a de justificar os cortes em resposta à recuperação mais lenta que a prevista”, diz Montero. O aumento de 0,2% da produção da indústria em junho pode ter sido um tenro broto a defender.
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