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A Europa voltou a decepcionar depois que Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), armou o circo para o espetáculo de salvação da crise europeia e saiu da reunião do comitê do euro, na quinta-feira, sem nenhuma decisão. As decepções se avolumam. Para quem passara a semana anterior anunciando que o BCE estava pronto para “fazer o que for preciso para preservar o euro”, que a moeda única é “irreversível” e que o rol de medidas para o resgate de economias combalidas, como Espanha e Itália, ainda sem programa formal de ajuda já aplicado a Grécia, Portugal e Irlanda, era mais que “suficiente”, Draghi fez palhaçada. Ou foi palhaço, conforme a reação dos mercados em baixa em todo o mundo logo após a sua fala. “Ele contrariou as expectativas e, grosseiramente falando, deixou claro que não tem almoço de graça”, avalia Sidnei Nehme, da NGO Corretora, um dos principais especialistas sobre os movimentos dos capitais estrangeiros. Draghi sugerira que o BCE retomaria a compra no mercado secundário de títulos de dívida soberana, sobretudo da Espanha, aliviando, assim, os juros exigidos do país na rolagem dos papelotes, da ordem de 7% ao ano, que o condenam à insolvência. O mercado subiu incitado pela esperança plantada por Draghi e caiu ao conferir que ela é condicionada a que os países em apuros cortem os déficits e restaurem a competitividade econômica – o neologismo disseminado pela Alemanha da chanceler Angela Merkel para suavizar as sequelas da austeridade fiscal sobre o crescimento e o emprego. Se tais condições forem atendidas, o BCE pode empreender operações de mercado aberto de “tamanho adequado”, disse Draghi. Isso não tem nada de espetacular. Depois de dois anos de correção dos problemas da Zona do Euro à base de purgantes econômicos, os mercados estão descrentes de outro resultado que não seja mais recessão e caos. “Mais uma vez ficou evidente que a excitação dos mercados no mundo tem conteúdo fortemente especulativo”, diz Nehme. “Os seus agentes focam os próprios interesses, desconectados da realidade do cenário econômico global, que recomenda cautela, não empolgação.” Os respingos no Brasil Nehme está há semanas aconselhando menos otimismo quanto à evolução da taxa cambial no Brasil, atualmente a R$ 2,05. Para ele, os fluxos de entrada e saída de capitais tendem a déficits e, por isso, a pressionar o preço do dólar. O governo parece que quer o dólar no entorno de R$ 2,00, enquanto a média do mercado, segundo a pesquisa semanal do Banco Central, aponta para R$ 1,93 no final de dezembro próximo e R$ 1,95 em 2013. A premissa é que os ingressos, sobretudo investimentos diretos, vão zerar os déficits em contas correntes. Essa suposição é o dado relevante para o BC inserir a inflação no intervalo de 4,5%, meta central no ano, e 6,5%, o teto, sem ter de cogitar outro ciclo de alta da Selic. Até aqui os ingressos atestam a relativa tranquilidade do BC para definhar a taxa básica de juro. Dólar tende a R$ 2,10? O cenário de Nehme, ao contrário da projeção do boletim Focus, não vê nenhuma chance de o dólar recuar a menos R$ 2,00. Ele sustenta que o preço deve evoluir até R$ 2,10, se o BC intervier no mercado à vista, suprindo liquidez, o que não faz há bom tempo. Ou passará desse nível, se preferir deixar as reservas de divisas intocadas. O agravamento da crise na Europa é determinante neste cenário, ao acentuar a aversão internacional ao risco e empurrar novas ondas de capitais ociosos no mundo para o refúgio dos títulos do Tesouro dos EUA - motivo de o governo Barack Obama não ter incentivo algum para ajustar as contas externas do país. Apesar de a dívida atingir 106% do PIB, os EUA se financiam ao custo de pouco mais de 1% ao ano. O preço das concessões A biruta que indica os movimentos globais de capitais não sinaliza apenas o grau de dificuldade do financiamento das contas externas. É também indicativo do interesse do investidor nas grandes obras de infraestrutura e das concessões de aeroportos, ferrovias, rodovias e portos que o governo vai anunciar nos próximos dias. O grosso dos lances e dos investimentos futuros será financiado pelo BNDES, mas o patamar do dólar é variável crítica nas projeções de retorno. Quanto mais instáveis estejam os mercados no mundo, menos chances terá a taxa interna de retorno (TIR) das operações a ser licitadas, conforme os parâmetros definidos pela presidente Dilma Rousseff. A presidente dá grande ênfase à modicidade das tarifas, o que já fez a concessão dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília sair para grupos mais fracos, viabilizados pela associação aos fundos de pensão de empresas estatais. O potencial para decepções, tal como a provocada no mercado pela fanfarronice do italiano Draghi, não é desprezível. Gastos não remunerados A rentabilidade das operações hoje geridas pelo Estado em condição precária, haja vista a má conservação das rodovias, a frustração do plano de revigoramento ferroviário e o congestionamento dos portos, sem falar no virtual colapso dos aeroportos, tem afastado a nata do empresariado, inclusive os fundos de fora, das grandes licitações. A usina de Belo Monte, por exemplo, é tocada por um consórcio que é privado, na forma, e estatal, na prática, bancado pela Eletrobras e suas subsidiárias, mais os onipresentes fundos e o BNDES. As maiores empreiteiras, autoras do projeto executivo, preferiram afastar-se. Avaliaram que a remuneração da operação não é adequada. Estima-se que a taxa de retorno de Belo Monte, quando pronta, será de 9% ao ano. Na conta das empresas, não passará de 3%. Nas novas licitações, prevê-se que o governo trabalhe com a média de 6%. Os operadores esperam algo mais. A equação continua aberta.
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