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A entrada na Venezuela no Mercosul, coincidindo com a passagem da direção rotativa da área de livre comércio para a presidente Dilma Rousseff, incomoda setores da política brasileira, mas formaliza o que o ex-presidente Lula entendeu do então colega George W. Bush em 2007, em São Paulo, em sua segunda visita ao Brasil.
Na reunião com Bush, Lula destacou, ao abordar o cenário geral da América do Sul, a importância da Venezuela na geopolítica na região e que os EUA não deveriam preocupar-se, segundo o testemunho de um destacado político do PT presente ao encontro, com a retórica ácida do presidente Hugo Chávez contra a influência de Washington.
Lula e Chávez haviam combinado esta abordagem. Bush ouviu e disse, conforme o relato do dirigente petista, que “Chávez é problema do Brasil até o dia em que resolver suspender os embarques de petróleo para os EUA”. A Venezuela possui a 6ª maior reserva de petróleo do mundo e é o 4º principal fornecedor dos EUA, onde a estatal PDVSA também opera refinarias e uma rede de postos de serviços.
Em tese, não combina com o discurso anti-imperialista de Chávez nem com a sua invenção política, a tal da “revolução bolivariana”.
Com a adesão militante dos governos do Equador, de Rafael Corrêa, e da Bolívia, de Evo Morales, na América do Sul, além da simpatia interessada da Argentina, de Cristina Kirchner, Chávez é o porta-voz de um modelo político que se diz a caminho do socialismo, como há em Cuba (a quem fornece petróleo em troca de serviços), mas, na prática, pautado pelo velho estatismo e dirigismo latino.
Lula sempre entendeu que atenderia melhor aos interesses do Brasil e à estabilidade da região a incorporação de Chávez ao dia a dia do continente, não obstante os seus devaneios inspirados, na versão do próprio, em Simón Bolívar - militar, como ele, e vulto da história venezuelana, conhecido como o libertador da América espanhola.
Chávez fez a China grande parceiro comercial da Venezuela depois dos EUA, virou cliente da indústria bélica da Rússia e se aproximou do Irã e Síria, países do que Bush chamava de “eixo do mal”. Como o ideólogo de si mesmo, Chávez se fez único, sem ser original.
O cenógrafo da cúpula
Chávez é impressionista como cenógrafo. Em Brasília, obrigou o cerimonial a mudar às pressas sua audiência com Dilma ao pedir para subir a rampa do Palácio do Planalto. A mesura acabou estendida aos outros líderes do Mercosul, Kirchner e José Mujica, o presidente do Uruguai. Depois das reuniões bilaterais, Dilma regeu a sua primeira cúpula como líder do continente, já com a Venezuela integrada.
As práticas de Chávez na Venezuela também não são convencionais: ele cerceia a imprensa, embora sem calá-la, açula a população mais pobre (assistida com programas sociais inspirados no Bolsa Família) contra a oposição e criou uma força paramilitar como contraponto ao exército. É circense e impetuoso, mas sugere respeitar o Brasil.
A confusão paraguaia
A Venezuela tinha o status de Estado associado ao Mercosul desde o fim de 2005, mas dependia de votação do Senado do Paraguai para sua entrada no pacto aduaneiro ser efetivada. Já havia a aprovação dos parlamentos do Brasil, da Argentina e do Uruguai.
A unanimidade é condição restritiva. O impeachment relâmpago do presidente Fernando Lugo pela Câmara e Senado do Paraguai foi o mote para virar a mesa.
Os demais governos do Mercosul entenderam que, ainda que tivessem seguido a Constituição do país, os parlamentares impuseram um golpe ao cercear a defesa de Lugo, limitada a algo como duas horas antes da votação no Senado.
Ele caiu por esmagadora maioria e sem maiores protestos. Mas foi estranho. Os demais governos afastaram o país do Mercosul até a eleição em 2013 e canetaram a entrada da Venezuela.
Jatos pela refinaria
Nenhum dos lados foi democrático conforme suas alegações: uns, ao tirar Lugo de supetão; outros, ao trazer a Venezuela sem o consenso unânime, assim estabelecido pelo tratado justamente para equilibrar o poder entre os grandes e pequenos países. O precedente foi ruim.
Mas era anormal a travada da Venezuela pelo descaso do Senado do Paraguai em votar a adesão. Se Chávez chegar sem pretensão de impor no grito os acordes do Mercosul, a associação estará justificada.
Ela traz uma economia promissora, embora arruinada, pois se tornou dependente crítica do petróleo. Ele meio que admitiu a concessão ao anunciar a compra por US$ 270 milhões de 20 jatos ER190 da Embraer, talvez para aplacar a irritação com o baile da PDVSA na Petrobras, com a qual partilha com 40% a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e não pôs um tusta. A certeza com Chávez por perto é que não faltará diversão.
Sem ambição à altura
Mas continua faltando o alicerce para a política de integração na América do Sul e Latina, que não precisa ser apenas comercial, sem chegar ao extremo ruinoso da união monetária na Europa. Também não é com cúpulas frequentes que se faz a aproximação. Antes da crise, os líderes europeus passaram anos sem se encontrar em bloco.
Integrações normalmente orbitam economias fortes como Alemanha (no caso da Europa), EUA (no tratado com Canadá e México) e China (no modelo em construção na Ásia, com Japão numa ponta).
A sintonia se faz por gravidade, alavancada por financiamento e com o atrelamento do câmbio dos demais à moeda da maior economia. Isso deve bastar, além de abertura prudente do mercado interno aos parceiros.
Um quadro nestes moldes, com fundos que paguem a integração física entre os países, é o que a região necessita. E antes EUA e cada vez mais a China propõem, ao ônus do alinhamento a seus interesses. Não pode é o governo se apequenar, temendo a pecha de imperialista.
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