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Alguém pode imaginar o Ronald McDonald anunciando que hambúrguer faz mal? Ou o ex-presidente Lula revelando que votou em José Serra para presidente e não em Dilma Rousseff? Absurdos, não é? Pois este é o tamanho da perplexidade provocada esta semana, nos EUA, pelo ex-banqueiro Sandy Weill, chairman honorário do Citibank, ao defender que os tais dos “bancos grandes demais para quebrar”, o que inclui, além do Citi, o Bank of America, o JP Morgan, o Goldman Sachs, entre outros, deveriam ser divididos compulsoriamente. Uma parte voltaria a se assumir como banco comercial, recebendo depósitos e fazendo empréstimos, divorciando-se da área de banco de investimento, de muito maior risco. É o setor voltado a gerir papel de dívida e ações, securitizar recebíveis e especular com todo tipo pensável e inimaginável de ativos financeiros, os tais derivativos. Essa divisão de tarefas do sistema financeiro nos EUA, meio como a metáfora da divisão de interesse entre a Igreja e o Estado, existiu da Grande Depressão dos anos 1930 até o governo de Ronald Reagan. É quando o forte regramento do mundo empresarial e financeiro nos EUA começa a ser desregulamentado, num processo culminado na gestão de Bill Clinton. Foi a ascensão do chamado neoliberalismo, que teve em Stanford “Sandy” Weill, depois de fundir o seu grupo segurador e de investimentos Travelers ao Citi, em 1988, o grande entusiasta. A separação Igreja-Estado do setor financeiro, por meio de uma lei de 1933, chamada Glass-Steagall, não atendia a Weill - um banqueiro que esteve para os EUA como estiveram para o Brasil, ao seu tempo, Amador Aguiar, do Bradesco, e Olavo Setúbal, do Itaú. Fez lobby de todo tipo para derrubá-la, inclusive recrutando ex-presidentes para o conselho do Citi. Conseguiu em 1999. Para muitos cronistas, a origem da enorme pujança econômica movida a dívida, no mundo - e também da derrocada, em setembro de 2008, com a quebra do banco Lehman Brothers, precipitando acontecimentos globais ainda em desenvolvimento -, começa com o trabalho de Weill para permitir que a banca operasse no (ou o) cassino financeiro. É surpreendente, por tais antecedentes, o seu mea-culpa. Mas há muito mais em jogo. A questão não é moral O arrependimento de Weill não é exceção, mas regra em todo o mundo devido à crise. A questão não é moral, como se infere da atitude do ex-banqueiro. É de perplexidade com um modelo de crescimento que se esgotou sem que já tivesse nascido o que por em seu lugar. Na China, equivale ao que os dirigentes que vão assumir o poder em 2013 discutem a portas fechadas: privatizar mais ou aumentar o grau de planificação da economia. Como promover o consumo doméstico para reduzir a importância para o crescimento econômico e a estabilidade política dos investimentos em infraestrutura e das exportações. É o efeito de uma crise sem precedente: ela força rupturas e escolhas entre opções conflituosas, o chamado trade-off. Ninguém está imune. O bumerangue da crise Na Europa, uma vez limpa a água turvada pelas dívidas soberanas no interior da união monetária, vai-se tratar de como recuperar em um continente rico, próspero e civilizado a competitividade debilitada pelo Estado de bem-estar. Não é uma decisão trivial, só de política econômica. Ela fere a alma do que distingue a Europa desde o pós-guerra. E, a rigor, está ameaçada menos pelos direitos sociais que pela globalização, pensada nas economias industrializadas como meio de estender os seus mercados ao mundo em desenvolvimento. Ninguém previu a obsessão industrializante da China nem a ascensão de outras economias pobres, ex-colônias várias delas, que hoje põem em causa a velha ordem econômica, até a hegemonia do dólar. Como um bumerangue, a globalização trouxe em seu volteio os emergentes, tal como o Brasil. É esse o choque que desnorteia as antigas potências. As surpresas a galope Tais tendências têm sido tratadas como crise conjuntural, que vão e vem, mas quase quatro anos depois de se espalhar como vírus, sem término à vista, é melhor cogitar outras prescrições. É o que fez o banqueiro Weill. Ele foi radical, mas há quem seja mais. Uma grande consultoria global, com muitos clientes no Brasil, propõe um calote de US$ 20 trilhões da dívida global. Falaremos disso outro dia. À margem da crise há mais gente e governos se mexendo que falando mal dos ricos. O gás e óleo não convencionais nos EUA, por exemplo, podem torná-los autossuficientes, com implicações geopolíticas - e mesmo para o pré-sal. É por tais coisas que não deve surpreender se dia desses Ronald McDonald virar vegetariano. Crises têm lado bom. Recuperar o bom debate O que talvez se deva reaprender no Brasil é o bom debate que havia no passado - apaixonado às vezes, inteligente quase sempre, e isso independentemente das opções assumidas. A República imperial, com o Congresso submisso, é um risco em momentos tão incertos como ricos. Já havia a necessidade antes da crise de um amplo debate. Como fez o PSDB, resultando na reforma monetária que nos tirou do rodapé das nações em desenvolvimento. E fazia o PT, gerando propostas, várias implantadas, como o projeto social, outras largadas, como o projeto de lei do então presidente do partido, José Genoíno, para reduzir o número de parlamentares e rever a participação regional na Câmara. Por onde andarão os petistas que faziam plenárias para “discutir o Brasil”? E os tucanos convencidos de que modernizariam o país? Até o PMDB teve seu momento estadista, quando formulou um plano em que, profeticamente, propunha um mercado comum ao Norte com a Venezuela. Eles próprios deveriam responder.
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