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Vai longe o tempo em que as contas externas do país, tais como as de Espanha, Itália e Grécia hoje, eram aguardadas com ansiedade e, mais ainda, a sua repercussão junto aos investidores estrangeiros. Isso passou. O Banco Central continua a divulgá-las todos os meses, mas já não desperta emoções. O crescimento da economia e a situação da indústria, além da inflação, atraem mais as atenções. O espectro da insolvência mudou de continente e sentou raízes na Europa. De economia problema, sempre se endividando mais do que os superávits da balança comercial conseguiam solver, o Brasil entrou no clube dos emergentes a quem hoje recorre o FMI (Fundo Monetário Internacional), passando o pires para amealhar capital emprestado às antigas potências colonialistas europeias. O mundo gira... Isso é ufanismo, mas quem se lembra da escassez cambial entre os anos 1970 e 2000, período das moratórias enrustidas e da formal no governo de José Sarney, além de quase uma dezena de renegociações de dívida externa e empréstimos condicionados do FMI, o último dos quais em 2002, sente hoje algum alívio. Espanha e Grécia eram aqui. Os mais jovens certamente ignoram que houve um tempo em que só se podia viajar para fora com US$ 500 comprados à taxa oficial (o resto vinha do mercado paralelo, consentido pelo governo) e cartão de crédito emitido no Brasil não tinha validade no exterior. Tais lembranças destacam o quanto o país avançou, e também servem de alerta, pela perspectiva do drama europeu, ao que pode acontecer em no máximo uma década de consumo financiado por dívida, déficits fiscais e cambiais endêmicos e a moeda valorizada (como o euro). A Argentina também pôs em moratória a sua dívida externa no fim de 2001 e pareceu ter aprendido a andar mesmo com o mercado financeiro fechado para seus papéis. E dai? Está outra vez cerceando a venda de dólares, barrando importações e falseando dados econômicos, como a taxa de inflação, que o governo diz ser de 9% ao ano e o mercado estima que passe de 25%. Os governos pós-moratória na Argentina seguiram usufruindo a riqueza das commodities agrícolas e movendo a economia com gasto fiscal e aumentos nominais de salários. Nenhuma reforma de fundo aconteceu. Assobiar e chupar cana No Brasil, ao contrário da Argentina, as reformas aconteceram, embora não com a amplitude e a coragem necessárias. Num primeiro ato, subiram-se os impostos e se fizeram privatizações para esgotar o financiamento inflacionário do gasto público. No segundo, iniciou-se o resgate do piso da pirâmide de renda, fortalecendo o mercado interno. O último ato, fechando a trilogia das reformas que levariam o país ao patamar dos desenvolvidos... Bem, não aconteceu. O terceiro ato, dos investimentos em infraestrutura e no aumento da oferta de bens industriais na fronteira da tecnologia, deveria ter acontecido em paralelo ao ajuste fiscal e às políticas sociais. Mas sabe aquela história de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo? Ninguém fez. A crise é transformadora O ajuste das contas nacionais, iniciado com a reforma monetária de 1994, corrigido pela maxidesvalorização do real em 1999 e reforçado depois de 2003 com as reservas de divisas acumuladas graças à bolha das commodities, ainda é uma obra por se completar. A oportunidade se apresenta outra vez com a crise global. Ela leva os capitais a procurar locais mais seguros, hoje, e rentáveis entre o médio e o longo prazo, considerando-se que a digestão das dívidas acumuladas na Zona do Euro e nos EUA vai levar quase uma década. É essa a expectativa apropriada para o governo conceber o que há a ser feito, focando o investimento para concluir a modernização inacabada da economia, e não apresentar a crise como desculpa para economizar, ao tentar conter as pressões do funcionalismo e dos partidos aliados para expandir o gasto público. Dinheiro não é problema A fotografia das contas externas referentes a junho, apresentadas pelo Banco Central, dá conforto ao país de que a crise global não é ameaça sensível e imediata, e também reforça a ideia de aditivar o crescimento econômico pela pegada do investimento público. O país teve déficit em conta corrente de US$ 4,4 bilhões em junho, acumulando saldo negativo de US$ 51,8 bilhões em doze meses. Não é para preocupar: equivale a 2,2% do PIB, estando estabilizado nesse patamar desde 2010. O fluxo líquido de investimentos estrangeiros, de US$ 5,8 bilhões no mês e de US$ 63,9 bilhões em doze meses (2,6% do PIB) tem permitido zerar os déficits com relativa folga. A rolagem de empréstimos privados vincendos também tem se dado com facilidade, representando 202% dos vencimentos. Isto é, a oferta de capitais superou as necessidades, sinalizando que a deterioração lá fora não chegou ao país. A crise se manifesta na balança comercial, cujo superávit no primeiro semestre, de 0,6% do PIB, caiu a quase a metade do de 2011, refletindo queda das commodities e maior entrada de importações industriais. A indústria é hoje o nosso ponto fraco. Problemas estão em casa Obviamente, se um desastre abrupto acontecer no mercado externo, e é o que está pintando na Europa, tudo muda para pior. Mas o governo ai terá de agir conforme o marolão. Sem tal evento, será o que está sendo, e é pouco para o Brasil. Dizemos que a indústria é problema, mas assim é devido à falta de competitividade da produção, lesada, por sua vez, pelo acumulo de diretrizes equivocadas dos governantes – como o câmbio apreciado para ajudar a conter a inflação. Uma política fiscal expansionista que fez do investimento público a variável de ajuste, ao incrementar o custeio da máquina federal e as políticas sociais dissociados da expansão da base produtiva e da infraestrutura, incluindo educação, também levou a esse quadro. Não é grave, não como antes, mas foi debilitando a expectativa do crescimento e trouxe de volta a dependência das matérias primas. A disfuncionalidade da gestão do Estado, enfim, é o grande obstáculo. E a solução. Sem resolvê-lo, tudo será pela metade, como tem sido.
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