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O Banco Central continua com faro apurado, cheirando as tendências antes da maioria dos analistas, como se constata pela ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Exatamente um ano atrás, o BC intuiu a recidiva da crise externa, ao iniciar o ciclo ainda em curso de distensão da taxa de juro básica. Agora, detecta algum alívio, embora mantenha a preocupação com o quadro externo. Tal é a súmula de um cenário complicado no mundo e também no país, mas com nuanças que explicam a instabilidade mais em alguns países e mercados que em outros. Além disso, deve-se distinguir o viés das análises segundo a autoria. As de bancos centrais e da banca tendem a enxergar o mundo pela ótica dos fluxos monetários e de capitais. O início de estabilidade da crise nos mercados de papéis de dívida soberana da Zona do Euro, hoje a maior fonte de insegurança global, assim como a situação dos EUA fez o mundo trepidar de 2007 a 2009, não necessariamente corresponderá ao fim da crise lato sensu para a economia real – o território da produção e do consumo. O provável é que apenas quando a emergência das dívidas soberanas europeias esteja superada, substituída por um longo período de duro ajuste fiscal e contração econômica, apareça mais nítida a mudança estrutural em processo no interior dos grupos empresariais e mesmo dos setores da atividade econômica. Disso os relatórios dos bancos centrais e do mercado financeiro pouco falam. Mas é o que importa, passada a situação que equivale à do doente assistido na UTI. O grande resumo estilizado do cenário atual e seu desenvolvimento sugerem que os EUA podem deslanchar depois da eleição presidencial em 4 de novembro. Seu problema é fiscal e de desendividamento das famílias, não das corporações, que estão mais fortes que nunca. A China está na “maldição da renda média” - imagem das restrições institucionais não resolvidas que acometem as nações ao alcançar a renda per capita da ordem de US$ 12 mil, por ai. É como se batessem no teto. Poucos países em desenvolvimento o ultrapassaram depois da 2ª Guerra, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Coréia do Sul e Taiwan são exceções. Essa doença do crescimento acelerado foi diagnosticada na China em estudo encomendado ao Banco Mundial pelos dirigentes do Partido Comunista que vão assumir o governo em 2013. BC está mais otimista... O pano de fundo da evolução da crise externa é o que mais mudou na ata do último Copom em relação ao anterior. Na síntese do Bradesco, o documento atual suprime os trechos que destacavam a frustração do BC com o desempenho da economia doméstica e “identifica o recuo na probabilidade de ocorrência de eventos extremos” na cena externa. Como lista a consultoria LCA, o BC indica que o ambiente externo mantém viés desinflacionário; a atividade doméstica terá reativação lenta; e os riscos para cumprimento das metas de inflação continuam decrescendo. “Isso sugere”, segundo a análise, “que, doravante, o BC espera um quadro externo menos turbulento”, apesar dos riscos. ... e fala em parcimônia Nos parágrafos prospectivos da política monetária, na avaliação do economista Fernando Montero, o BC conjuga um “ritmo mais intenso da economia doméstica neste semestre”, ecoando os efeitos cumulativos e defasados da distensão da taxa Selic e do crédito, com o sinal de que “iniciativas recentes” destacam a “neutralidade do balanço do setor público". Em suma: a política fiscal não será contracionista. O gasto público usado para vitaminar o débil crescimento econômico e a retomada lenta da demanda, combinada com a reação dos preços das commodities agrícolas, podem explicar a mensagem do BC segundo a qual a “flexibilização monetária adicional” será conduzida “com parcimônia”. É a pista sobre a evolução futura da Selic. Ambição é muito limitada A ata criou o consenso de que a Selic terá mais um corte no Copom de 29 de agosto, vindo de 8% para 7,50%, ou em duas doses de um quarto de percentagem, o que esticaria o movimento de distensão até a reunião de 10 de outubro. Menos que isso ficaria condicionado ao ritmo de crescimento da economia. Se continuar a pasmaceira, o ciclo de redução da Selic será estendido. Essa perspectiva parece modesta, já que, a esta altura, importa ao BC encontrar um novo piso de referência para a Selic, abandonando o patamar de dois dígitos em que esteve a maior parte do tempo desde 1999. As condições estão dadas, e não há momento melhor frente ao cenário desinflacionário no mundo. A política econômica é que deve ajustar-se a um ambiente de juro baixo, com a inflação em torno do centro da meta (4,5%) e o crescimento econômico médio nos próximos anos de 4,5%. Já perdemos tempo demais para nos apequenarmos. Rezando para dois santos Enquanto o juro de política monetária se ajoelhar para dois santos – o controle da inflação e o custo do crédito -, atendendo ao mesmo tempo as necessidades da estabilidade e do crescimento econômico, o BC estará sob o fio da navalha. É como alertou o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, falando à Câmara nos EUA na quarta-feira: “A política monetária não é panaceia”. O BC não pode mais ser parte da espécie de pacto vigente na gestão passada, em que apertava os juros para que o governo folgasse o gasto. A presidente Dilma Rousseff mudou a relação, ao transferir o ônus da parcimônia a que se refere o BC da política de juros para o orçamento fiscal. Esta é uma obra permanente, que demanda outras iniciativas, como o desmonte dos resquícios da indexação e maior regramento do gasto público corrente. Dilma já fez o mais difícil, que foi começar. Por que parar, quando nem saboreou os resultados?
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