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Embora tenha chocado muita gente, a julgar pelos e-mails enviados aos jornais e a reação nas redes sociais, foi uma pisada de bola a declaração da presidente Dilma Rousseff, na semana passada, de que “uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para as suas crianças e para seus adolescentes”. Não teria passado de uma frase de efeito, típica de redatores de discursos, se parasse por ai. O momento infeliz foi o arremate: “Não é o Produto Interno Bruto”. Como assim? Nem se questiona que tais eventos estejam associados, já que a riqueza de uma nação é condição sine qua non para que haja justiça social, o que inclui a proteção à criança e a formação da juventude, embora não implique que tal resultado seja automático. O que não há é bem-estar social convivendo com a economia estagnada, apesar de o contrário ser muito comum: a economia bem e o povo mal. A crítica ao conceito absoluto do PIB como medida da felicidade de uma nação não provocaria estresse se viesse, por exemplo, da ex-ministra Marina Silva. Na boca de quem foi lançada na política como a exigente gerente das obras de infraestrutura do PAC, soou como oportunismo. Ainda mais por coincidir com o rol de maus resultados da economia, incluindo o anúncio da prévia do PIB, calculada pelo Banco Central, indicando que a economia não cresce desde dezembro. Na métrica do BC, o PIB acumula alta de 1,27% em doze meses até maio – um desastre para quem começou o ano dizendo que a economia iria deslanchar em 2012, crescendo 4% a 4,5% sobre o resultado de 2011 (2,7%), e exaltou o Pibão de 2010, quando a economia bombou 7,5%. Dilma é criatura do sucesso da economia. O então presidente Lula a apresentou assim e agora é tarde para mudar a imagem. Não depois de passar meses tentando com pacotes diversos conter a desaceleração da economia, além de criticar os governantes da Zona do Euro por praticar o receituário da austeridade fiscal, enquanto faria o oposto no Brasil, com investimentos e políticas sociais. A sua agenda é essa, e não porque se trate da percepção que se tem de suas prioridades, mas porque é o certo para a economia. Fim de ciclo em marcha Não tivesse tal visão e Dilma não mostraria aplicação em proteger o PIB das ondas da crise global, variando a origem - ora da Europa, ora da China, ora dos EUA, mas, essencialmente, a mesma iniciada ao fim de 2007 e que vem completando cada etapa do processo de fim de um ciclo de prosperidade movido a dívida e a inovação tecnológica, com a emergência de novos centros dinâmicos, como China e Brasil. O que virá depois ou onde estará o próximo drama é incerto. A se fiar na história, crises financeiras, associadas à criação de capacidade de produção, demoram a passar. Normalmente, o prenúncio da fase final do ciclo é vislumbrado quando produtores mais fracos definham e os mais fortes fecham fábricas ou se transformam. Digestão de capacidade Tais casos são visíveis com nações, como a Grécia, cujo PIB hoje é mais de 20% menor que o de 2007, ou a Itália, estagnada há dez anos – portanto, desde a sua entrada na união monetária. Mas é no mundo das corporações que o fenômeno é visível, inclusive na China. Tome-se o caso do gigante chinês do aço Baosteel: foi autorizado a construir uma siderúrgica em maio, mas, depois da cerimônia a que se seguiu, nada aconteceu. Provavelmente, levará tempo para acontecer. A China, sozinha, produz aço para si, o maior consumidor mundial, e para atender toda a demanda externa. É um dos motivos de o grupo alemão ThyssenKrupp ter posto à venda, com dois anos de operação, a siderúrgica que ergueu no Rio de Janeiro, tendo a Vale de sócia. O fabricante francês de veículos PSA Peugeot Citroën vai fechar a sua fábrica ao norte de Paris, cortando 8 mil empregos. A Fiat vai fechar cinco fábricas na Europa de sua divisão de utilitários Iveco até o fim do ano, reagrupando a produção numa fábrica na Alemanha. A divisão é excludente Outras montadoras europeias também cogitam medidas extremas, como a BMW, que já deslocou fábricas para EUA e China. A Opel, divisão da GM na Europa, está mal há tempos e também estuda encolher. Não estamos imunes a tais movimentos. Em 2009, o setor automotivo redefiniu as suas áreas de desenvolvimento no mundo, e o Brasil foi excluído do filé mignon das novas tecnologias. Sobrou a montagem de carros pequenos e médios, dividida com a Argentina e o México. A Airbus anunciou a construção de uma fábrica nos EUA para driblar a apreciação do euro e o protecionismo que beneficia a Boeing. Tais transformações estão em curso em todos os setores, com perdedores e vencedores. O fim do ciclo começa assim. E para quando a oferta se adequar à nova demanda potencial. Dilma não desconhece a história, segundo gente que lhe é próxima. Cometeu um deslize ao desdenhar o PIB, mas teria sido só. Melhor assim. A metáfora das guerras A queima de excesso de produção tornada gravosa para as empresas mais frágeis ou com operações em mercados sem competitividade vai redesenhar o novo mapa do poder econômico no mundo, envolvendo uma luta feroz. A Europa sai em desvantagem, se não exorcizar o dogma da moeda forte. Na China, o desafio é trocar pelo mercado interno a sua ênfase exportadora num mundo mais vendedor que comprador. Os EUA estão entre o impulso da produção de gás e óleo de fontes não convencionais, além de novas tecnologias disruptivas prestes a maturar, e as suas apodrecidas finanças públicas. Todos exercitam também uma sutil diplomacia cambial, visando atrair, caso da China, ou reter, a situação dos EUA, os países para a órbita do dólar ou do renminbi. O jogo está sendo jogado e o resultado é imprevisível. Dificilmente o desfecho será pacífico, não implicando dizer que há guerras à vista, mas, figurativamente, é disso que se trata. Como é que estamos inseridos neste puxa-estica entre as grandes economias?
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