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Qualquer que seja o modesto crescimento econômico este ano - 1,5%, como preveem bancos e consultorias mais pessimistas (ou realistas); 2%, conforme a média semanal de mercado; ou 2,5%, aposta do Banco Central revisada em seu relatório trimestral –, a inflação seguirá firme. Pode até roçar o centro da meta (4,5%), mas dai não passa. A variação em doze meses até junho acumula alta de 4,92%, recuando desde seu pico de 7,3%, em setembro, e repetindo o padrão de 2009, quando o Produto Interno Bruto (PIB), em recessão, caiu 0,3%. E a inflação? Não acompanhou a capotagem da economia, desinchando apenas 1,6 ponto percentual de 2008 (5,9%) para 2009 (4,3%). Hoje, apesar do PIB acanhado, no entanto, o BC de Dilma Rousseff está até mais parcimonioso com a taxa de juro básica que o BC de Lula. Entre os finais de 2008 e de 2009, a taxa Selic perdeu 5 pontos de percentagem, vindo de 13,75% ao ano para 8,75% - e assim ficando de setembro de 2009 a abril de 2010, quando voltou a subir. Hoje, ela converge para 8%, o que implica um corte acumulado de 4,5 pontos de percentagem desde o seu pico anterior, de 12,50% até outubro, caso o Copom tire mais meio ponto da taxa atual, fixada em 8,50%. Tal jogo de números parece confuso, mas elucida duas realidades da economia. A primeira é que a inflação tem calços contra a retração, independentemente da virulência da queda da atividade econômica. A segunda é que esse resultado dissocia a economia do viés global, em que a desaceleração econômica vem acompanhada de uma quase deflação – visível na Europa, restrita a alguns setores nos EUA e começando a preocupar na China. Os extremos da inflação são indesejáveis. As duas constatações remetem a uma terceira: por mais que Dilma se apresente como uma presidente de pulso, ela ou a sua coordenação da política econômica se mostra ou pouco à vontade ou muito temente de tirar vantagem do momento preocupante da economia aqui e no mundo. Uma delas é flagrante e tem o testemunho do que aconteceu na última recessão, em 2009: a rigidez da inflação para baixo. O zumbi da indexação Isso se deve à indexação, que era para ter sido extinta na reforma monetária de 1994, mas permaneceu regulada para alguns preços, como energia, gás e telefonia, em aluguéis e escolas, em transportes, em operações financeiras e nas negociações salariais. É muita coisa. Isso que sobrou é mais que um resíduo. E foi ainda ampliado tanto no governo Lula, com a indexação de tributos, como com Dilma, com a regra de reajuste do salário mínimo, extensiva às aposentadorias. Trata-se de justiça social seletiva, já que deixou de fora milhões de assalariados sem poder de mobilização para ter reajustes com tal proporção, além das dezenas de milhares de profissionais liberais e pessoas jurídicas, os chamados PJ - na verdade, o emprego precário, disfarçado de empreendedorismo. Apenas a inflação baixa e estável é que permite horizontalizar a ascensão da renda real. Acordos por 2 a 5 anos Não há também a verdadeira expressão de uma economia estabilizada, manifestada por acordos salariais de dois a cinco anos, típicos da coesão sedimentada pela socialdemocracia na Europa do pós-guerra e, devido à crise, posta em causa. Mas não na Alemanha e nos países no norte europeu, onde a crise é muito mais amena. A onda de greves do funcionalismo federal está ai a demonstrar a instabilidade do atual regime de relações trabalhistas, baseado na inflação passada e não na expectativa da inflação futura, além de participação nos ganhos de produtividade. E mais talvez um gatilho acionado a cada arranque da inflação acima de um nível negociado. O país tem de caminhar para uma economia expurgada dos artefatos de defesa do capital e da renda da época da inflação endêmica, da qual nos livramos. Isso implica, para começar, vedar reajustes pela inflação passada em contratos com até um ano e trocar, no mercado financeiro, o CDI por um sistema de taxa flutuante semestral. Desatenção do governo De resto, a falta de atenção também é uma forma de errar ou perder a oportunidade de tirar vantagem. Tome-se o reajuste da gasolina e do diesel, uma necessidade para o caixa baixo da Petrobras e também para ativar a estagnada produção de etanol. O aumento foi minúsculo e ao custo de zerar a CIDE, um tributo regulatório, para não chegar à inflação. É impossível que o governo desconhecesse que a inflação de junho viria muito baixa, 0,08%. Havia espaço para um aumento maior, inclusive para que um naco da gorda receita tributária auferida com os combustíveis bancasse parte do corte de tarifas de energia elétrica - um dos muitos custos que explicam a baixa competitividade da indústria. Além das ações tópicas Como diz o economista Julio Gomes de Almeida, discorrendo sobre a crise que abate a indústria, o governo Dilma não é responsável pelo “acúmulo de tantas e profundas distorções na economia, mas o outro lado também procede: ações tópicas e em dose homeopática, de pouco alcance imediato, não vão mudar o quadro atual”. A economia precisa de um evento grande. Se a inflação está baixa e sem risco à vista, além de desmontar a indexação, também há espaço para cortar mais a Selic, para 6%, por exemplo, remonetizar dívida pública ou remunerar a uma taxa simbólica o overnight, para a banca desempoçar do BC as operações de prazo curto, algo como 10% do PIB. Medidas com esse teor dariam a Dilma legitimidade para pedir à sua base no Congresso que desengavete projeto de lei de 2007, que cria teto anual de 2,5% acima da inflação para o aumento da folha do funcionalismo. O tempo do aplauso fácil passou com Lula e deve demorar a voltar.
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