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Com a inflação extremamente baixa em junho, com variação de apenas 0,08% sobre maio, e o emprego elevado, entende-se a taxa recorde de aprovação da presidente Dilma Rousseff, maior que a de Lula em qualquer ponto de seu governo. A sensação de bem-estar é marcante. A contraface do aumento do poder aquisitivo, resultado da inflação cadente (agora com variação de 4,92% em doze meses até junho) e do mercado de trabalho apertado, com o menor desemprego da história (5,8%), é menos visível aos sindicalistas, ao mundo da política e ao funcionalismo federal, todos com dificuldade de entender, à luz do que reivindicam, o descompasso entre este cenário de virtudes e o crescimento minúsculo da economia e do investimento. A contradição entre a percepção da sociedade e as necessidades da economia é a questão nevrálgica para o governo. Sem por a produção para andar, e mais pelo investimento que pelo consumo bancado por dívida pessoal, é grande o risco de que a desaceleração da economia contamine o emprego e envenene as relações do governo com sua base política. Ainda mais num ano eleitoral e com os sinais de abertura antecipada da disputa à sucessão presidencial em 2014. Ela terá algum controle do processo quanto mais bem-sucedida seja a retomada dos investimentos, começando pelos de responsabilidade do setor público - os mais atrasados entre os projetos em curso no país, não obstante tenham financiamento garantido e estejam livres da aversão ao risco do empresariado privado, motivado pela crise no mundo. Tais reveses implicam grandes mudanças ao governo, começando pela ênfase total à volta do crescimento. Se não já, na tendência, com a remoção do que impeça o investimento publico e privado. Atividades administradas pelo Estado vão ser concedidas ao capital privado, como praticamente todos os portos e as rodovias federais, e outros aeroportos logo farão companhia aos de Guarulhos, Campinas e Brasília já licitados. A necessidade de realizações tornou o viés estatizante de parte do governo e do PT um luxo caro e temerário. Receptividade de Mantega O comportamento do ministro Guido Mantega também mudou. Está mais receptivo às sugestões do empresariado, se implicar a movimentação das engrenagens da economia e preservar o status do emprego. Ele passou de quarta a sexta em São Paulo, dividido entre eventos, nos quais garantiu a solidez da economia em meio às incertezas globais, e encontros reservados com empresários para falar de investimento. Em um destes eventos, com empresários do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e do Instituto Talento Brasil – para a apresentação de trabalho sobre a situação do financiamento de longo prazo e de propostas para desenvolver o mercado de títulos de dívida corporativa -, Mantega convocou ambas as entidades a que se reúnam com sua assessoria e ele mesmo para aprofundar as ideias. O ministro foi muito aplaudido, assim como o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que o acompanhava e expressou apoio às propostas. Falta de reação incomoda A esta altura, com uma fieira de pacotes anunciados - de corte de imposto de carro e linha branca a crédito barato para investimento dos estados, além da depreciação cambial e da pressão para a queda dos juros bancários -, nem o mais birrento dos críticos pode negar o esforço do governo para forçar o crescimento econômico no muque. Nada tem merecido maior atenção da presidente. Mas a surpreende a demora em aparecer resultados. Até dois anos atrás seriam quase que imediatos. A frustração não é só dela. Nem o empresariado, em parte responsável pela lentidão da economia ao frear o investimento, mas mantendo o emprego e as atividades correntes, esperava algo assim. A crise expõe as mazelas A questão é até quando. O ânimo empresarial começa a se dissipar quanto maior a percepção sobre a dificuldade do governo em agilizar o investimento público, que só depende da aptidão da burocracia, e de desentravar questões menores. No Brasil, tudo ficou exasperante e “escandaloso” - de licenças ambientais a certidões regulatórias. A economia não enfrenta só problemas conjunturais devidos à crise externa, que é grave e está piorando na Europa e se teme também na China. Mas ela expôs, sem condicionantes, mazelas estruturais, como a crescente disfuncionalidade institucional do Estado brasileiro. O cenário é de caos. Uma imóvel no Recife, por exemplo, espera há cinco meses alvará da Prefeitura para ser reformado. O atraso veda a jovens do Nordeste o acesso à maior aceleradora regional, talvez do país, de projetos de tecnologia, envolvendo um grupo privado e o Porto Digital. Casos assim se repetem todos os dias em todo o país. O poder dos carimbadores Dilma está empenhada em fazer do desenvolvimento econômico, com os seus desdobramentos sociais, o ponto alto do governo. Para um salto de qualidade do crescimento, que implica aprimorar tanto a gestão pública como a produtividade empresarial, talvez o tempo certo já tenha passado. O que interfere com interesses arraigados de lobbies normalmente só dá para mudar no inicio do mandato. Mas há uma porção de pequenas ações, a maioria envolvendo questões fiscais e burocráticas, cuja atualização demanda menos polêmica e seria capaz de aliviar os negócios e ajudar a vida das pessoas. No passado, houve um Ministério da Desburocratização. Hoje, pode bastar uma comissão de produtividade para avaliar o resultado de políticas públicas e se atendem ao cidadão. A Austrália tem a sua, ligada ao Parlamento e nomeada pelo governo. Não dá é para a sociedade ficar refém do comércio de facilidades e do poder miúdo de carimbadores.
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