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Com baixo crescimento econômico e virtual colapso do investimento, a economia brasileira se assemelha, vista do alto, ao que se passa nos EUA, não fosse pela situação do emprego - em falta no Brasil, com desemprego no nível de 5,8% da população ativa em maio, o menor da história, e, lá, acima de 8%, o maior desde a 2ª Guerra. Na Europa, o desemprego passa de 10%, e vem aumentando no rastro dos programas de austeridade impostos aos países insolventes da união monetária, mas também aplicados com fervor religioso até por economias sólidas contra o que as regras de convivência econômica da Zona do Euro amaldiçoam: o endividamento público acima de 60% e os déficits fiscais maiores que 3%, ambos em relação ao PIB. O Partido Republicano, oposição nos EUA ao governo Barack Obama e majoritária na Câmara, apoia o mesmo princípio, travando a despesa fiscal como instrumento para ativar a economia. E anuncia um choque fiscal em 2013, caso seu candidato Mitt Romney vença a eleição em novembro, tirando Obama e o Partido Democrata da Casa Branca. E nós com isso, além do risco de que os EUA, ainda com crescimento econômico moderado, se juntem à recessão cada vez mais democrata na Europa, faltando, grosso modo, a Alemanha nesse mapa? Temos lições a extrair. Elas saltam do manifesto antiausteridade que o polêmico economista Paul Krugman lançou com Richard Layard, um colega inglês também respeitado, instando os governos do Ocidente a gastar. E gastar mesmo à custa de mais dívida. O crescimento, segundo eles, faria aumentar a arrecadação fiscal e, ao reduzir o desemprego, baixaria, também, o gasto social. Como diz o economista americano Dean Baker, que subscreve o manifesto, a lógica é sólida, embora negligenciada. “O ponto mais importante a considerar”, diz ele, “é que os países ricos enfrentam o problema [do desemprego] não porque se tornaram pobres, como os defensores da austeridade insistem. O problema é que somos ricos”. Os EUA tem hoje 10 milhões de desempregados, diz Baker, porque as empresas conseguem atender a demanda corrente sem precisar empregar. Foi o que levou à Grande Depressão de 1929: a falta de demanda, enfrentada pelo governo Roosevelt com o chamado New Deal, um programa maciço de obras públicas. Para sair da estagnação Tal diagnóstico e prescrição não se aplicam ao Brasil, pode-se argumentar. Não há, ao menos por ora, desemprego a preocupar. Mas há retração do investimento privado, e a demanda das famílias está exaurida, provisoriamente, pelo alto comprometimento da renda (22%, segundo o Banco Central) com a amortização de dívidas - e isso de modo sincronizado pelos incentivos do governo ao consumo a crédito. A percepção (certa ou falsa) de que o governo está perplexo diante dos problemas, mais a crise externa, engrossa a estagnação. Como se rompem tais sentimentos? Não é com mais dívida. A bolha do subprime do mercado imobiliário nos EUA começou com as autoridades ignorando a imprudência da banca no processo de bancarização sem controle. A saída, porém, envolve a articulação do investimento público. Inépcia exaspera Dilma A solução está clara e já agita a presidente Dilma Rousseff: se o investimento privado travou, o investimento público não tem porque também dar meia volta. Na quarta-feira, ela reuniu em Brasília os principais envolvidos com os projetos de infraestrutura do cardápio do PAC para cobrar agilidade. Dilma percebeu que falta ao governo a Dilma do então presidente Lula. E, sem ver substituto à altura, investiu-se ela mesma da função. Dada a baixa aptidão executiva dos setores “obreiros” do governo, sua taxa de sucesso não deve impressionar. Mas é melhor tentar a nada fazer. Primeiro, porque o funding para o investimento público já está no orçamento. Não vai gerar déficit, como nos EUA e na maioria dos países europeus. Segundo, tais obras são essenciais. Terceiro, sem pulso firme, não vão acontecer. E a economia precisa deles para o crescimento não desfalecer. Estatais são 30% do PIB O investimento público total bancado pelo orçamento não é grande coisa: chega a 2% do PIB. O setor privado é que investe pesado: 16% do PIB na média dos últimos dez anos. As estatais, no entanto, têm capacidade de mover a economia. Afora a banca pública, apenas as 14 de capital aberto, segundo estudo de Aldo Musacchio, de Harvard, e Sérgio Lazzarini, do Insper, têm produção equivalente a 30% do PIB. Na China, tal participação é alcançada pela soma dos resultados de 942 empresas estatais. É muita coisa no Brasil, suficiente para se concluir que o setor público empresarial, apesar das deficiências, tem massa crítica para empurrar a economia. Não faz mais não porque este governo não queira. A burocracia é que não consegue. A brava gente esquecida Talvez com Dilma em cima, o governo consiga obter do investimento público melhor resultado. No primeiro semestre foi um fiasco. Pelos dados do serviço Contas Abertas, o governo pagou apenas 2,1% a mais do que investiu em igual período de 2011, sem incluir o subsídio do programa Minha Casa, Minha Vida. Não fez mais devido à morosidade padrão, à falta de projeto e aos embargos da Justiça. Mas não há apenas grandes obras e grandes empresas a inspirar mais atenção do governo. O país dispõe, segundo dados do Sebrae, cerca de 12 milhões de pessoas à frente de pequenos negócios que já estão em operação há mais de três anos e meio – um feito notável, já que a mortandade das empresas nascentes, vulgo startups, passa de 70%. Boa parte desses empreendedores só tem o primeiro grau, mas não se abalam com riscos. Também são os que mais empregam e inovam no país, apesar do ambiente hostil que os envolve. Qualquer incentivo adicional vai custar pouco e fará mais pelo desenvolvimento que muito plano badalado do governo. O BNDES tem know-how para isso. Falta decisão.
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