|
Da Petrobras do “bilhete premiado” trazido pelas reservas do pré-sal, segundo o otimismo do então presidente Lula e de sua chefa da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Petrobras da produção estagnada nas áreas da Bacia de Campos há três anos, não mudou apenas o governo. Mudaram a direção com a posse da engenheira Maria das Graças, ou simplesmente Graça, na presidência, antes ocupada pelo economista José Sérgio Gabrielli, e também o conceito de quase infalibilidade da empresa, nos discursos oficiais da velha gestão, para o de uma companhia com “metas não realistas ano após ano” - como declarou a nova dirigente em apresentação a investidores. É sabido que a estatal enfrenta problemas desde 2010, mas de caixa (fonte da maior parte do custeio de seus investimentos volumosos), dado o preço congelado do diesel e da gasolina por razões técnicas da Fazenda, relacionadas à inflação, e populistas do governo, já que os combustíveis estão no primeiro patamar das percepções de bem estar da sociedade. Desconhecidos eram seus problemas operacionais. Se estivesse tudo nos conformes, a nova direção - sem mais ninguém da equipe de Gabrielli à exceção da própria presidente, que ocupava a diretoria de gás, e do diretor financeiro, Almir Barbassa -, não teria preparado um Programa de Aumento da Eficiência Operacional da Bacia de Campos (Proef). É dai que sai o grosso do óleo consumido no país, mas a produção da estatal está estagnada desde o pico de 1,69 milhão de barris/dia, em 2009. Em 2011, foi de 1,54 milhão. A parte de água extraída juntamente com o petróleo teria aumentada ao longo dos anos, reduzindo para algo como 70% a eficiência da produção. Isso seria um dos motivos das sucessivas frustrações das metas de produção da Petrobras. Graça assumiu com o compromisso de recuperar a curva de produção de óleo e gás, focando as atividades fins e priorizando o alinhamento das metas físicas às financeiras. Zelo com a sinceridade Tecnicamente, as novas diretrizes repercutiram bem, embora a ação da estatal ainda sofra o efeito da capitalização onerosa, em 2010, com recursos do Tesouro, acompanhada do sentimento dos investidores de que seus resultados estariam sujeitos à ingerência do governo. O que se constata pelo plano de negócios para o período de 2012-2016 é que investimento subjetivo não existe no planejamento de Graça (que expressa a orientação de Dilma), e isso será bom para o resultado. A sinceridade da presidente, no cargo desde fevereiro, tem sofrido críticas em setores do governo, sobretudo da área econômica, sob o entendimento de que, com ações em bolsas de valores, inclusive na da Nova York, ela deveria ser mais “zelosa” com o que diz. No caso, zelo tem o sinônimo de política. Há uma contradição nessa crítica, já que gestão política é tudo o que o investidor menos aprecia. Prioridade sem enfeites Não tivesse o cronograma de obras da Petrobras sido enfeitado com projetos sem a mesma prioridade atribuída à exploração e produção e, provavelmente, sequer fossem cogitadas as refinarias no Maranhão e no Ceará, adiadas no novo plano. Quanto à de Pernambuco, em fase avançada, talvez estivesse desligada da PDVSA, da Venezuela de Hugo Chávez, que até hoje não pingou um tostão de sua parte. Mas quer ser bancada pelo BNDES sem oferecer garantia para merecer o regalo, além de já ter questionado o custo do investimento. No estilo pão-pão-queijo-queijo de Graça, os projetos terão de se revelar viáveis para saírem do papel, passando por três prévias de avaliação antes de o investimento ser contratado. E os números de produção efetiva foram desinflados, de forma a dar consistência às novas metas - de 3,3 milhões de barris/dia até 2016, dos quais 300 mil no exterior, e 5,7 milhões/dia até 2020 (500 mil no exterior). A que serve o conselho A transparência imprimida à Petrobras deveria orientar as outras áreas do governo, como a de transportes, e não só as estatais. Mas há estranhezas a solver, como o papel do Conselho de Administração, que, no caso da Petrobras, é presidido pelo ministro Guido Mantega. Nas empresas abertas, o conselho é a face dos acionistas. A ele se reporta a direção executiva. Pelo que Graça revela, ou a diretoria chefiada por Gabrielli omitiu a situação da estatal ou a expôs sem ser compreendida pelo conselho, ou por razões alheias à necessidade da empresa. Em qualquer hipótese, o conselho teria falhado. A governança de um virtual monopólio, ainda mais de capital aberto e com status de vitrine nacional, tem de reunir aptidões técnicas e não só administrativas para exercer sua função com certa autonomia, depois de aprovadas pelo presidente da República as diretrizes do negócio. O governo e a sociedade estarão mais bem servidos. Legado do desconforto Se cumprir parte do empenho demonstrado, reforçado pela resposta a se estaria confortável com as metas revisadas de produção – “aqui”, disse Graça, “ninguém trabalha com conforto de absolutamente nada” –, a presidente da Petrobras deve reaver a estima do mercado para as ações da empresa. A cotação atual é 18% menor que a de julho de 2011. A queda chega a 48% desde o seu pico em 2009. O tal mercado só não deve esperar por mudanças no programa de nacionalização. Com US$ 236,5 bilhões de investimentos entre 2012 e 2016, 60% dos quais para exploração e produção e 51% desse naco para o pré-sal, o papel indutor de política industrial dessa dinheirama está para as novas iniciativas e o desenvolvimento tecnológico tal como o gasto militar nos EUA para boa parte da inovação consumida no mundo (como a internet). A infraestrutura na China faz o mesmo. Custa caro, mas é o legado para depois que o petróleo passar: indústria atualizada, cultura tecnológica e empregos de qualidade. O mercado reclama, mas sabe que esse custo já está precificado no resultado.
|