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A história de um país que emprega muito, cresce pouco e não sofre do ócio que acomete nações como Japão e Suíça, em que a população é 100% alfabetizada e saudável, as estradas são tapetes de concreto e não há nada por fazer, enfim, deve ser obra da praga da inércia. Em 1994, graças à reforma monetária, livramo-nos de uma delas, ao menos parcialmente, já que lambança é como capim ruim, nunca perde a raiz: a inércia inflacionária, que levava a inflação de ontem a se reproduzir na de amanhã pelo mecanismo diabólico da indexação. O Plano Real foi relativamente bem-sucedido ao fechar a emissão de moeda como meio de pagamento de déficits públicos. Mas o governo da época foi complacente com a banca, ao deixar que indexasse ativos financeiros e contratos de dívida, além de lhe dar acesso ao papel do Tesouro que mirrou o poder de dissuasão do Banco Central contra pressão inflacionária: as letras corrigidas pelos juros da Selic. A banca perdeu a receita do “imposto” inflacionário, que a levava a faturar em cima dos depósitos à vista à custa dos depositantes, e ganhou autorização para cobrar por serviços, como talão de cheque e transferências bancárias. E o sistema financeiro, o que a inclui, foi protegido das variações da nova taxa de juro básica, a Selic. Os papéis “selicados” são como jabuticaba: só têm aqui. No mundo, a mecânica do regime de metas de inflação prevê a perda relativa do capital ocioso a cada aumento dos juros básicos, de modo a que seus detentores trabalhem contra a inflação. Se a cevarem, o porrete dos juros impõe perdas. Aqui, a inflação dá frutos. Culpa da inércia? Na metade do segundo governo FHC, os economistas que patrocinaram a Selic e as letras selicadas cogitaram eliminá-las. A coisa não avançou porque se julgou que tais papéis punham a banca a salvo das oscilações de juros, protegendo-a de riscos sistêmicos. Felizmente, a festa começa a ser revertida pelo Banco Central, com a queda dos juros básicos, e o Tesouro tende a abandonar aos poucos a Selic como indexador de dívida pública. Demorou. E por inércia. Me inclua fora disso É a falta de vontade de enfrentar os lobbies que leva o governo, e foram todos (FHC, Lula, Dilma Rousseff), a evitar desgastes, indo ao Congresso batalhar pelo fim, por exemplo, da correção de aluguel e mensalidades escolares com base em índices de preços. É como se não houvesse produtividade nestas negociações, só repasse de custo. O resultado é a inflação resistente até a uma recessão feroz, como em 2009, quando o PIB recuou 0,3%. E a inflação? Aumentou 4,3%, um tico abaixo da meta central no ano, 4,5%. E o BC ainda quer que nós acreditemos que trabalha para por a inflação na meta. A que custo? Ao custo da remoção das outras inércias acumuladas, ou só chega lá com uma crise externa deflacionária, como hoje, ou com recessão. Ilusão das ideologias Nem sempre a inércia se manifesta de forma clara. No tempo de FHC, por exemplo, imaginava-se que o ajuste fiscal faria o mercado fazer o resto, de investimentos em infraestrutura à inovação tecnológica. Era ilusão, fruto de ideologia com voluntarismo, tanto quanto a do governo Lula e de Dilma, mas em sentido contrário, fixado na crença de que um forte mercado interno de massas, garantido por políticas sociais e facilidades de crédito, tornaria a economia atrativa para o investidor. Fosse assim e a Índia, com cinco vezes a população do Brasil, já teria passado a China como potência econômica. Sem taxa de retorno decente, nenhum investimento fica de pé, exceto com juro subsidiado, incentivos fiscais e alguns brigadeiros mais. O mal da complacência E assim estamos, usufruindo a prosperidade da estabilidade trazida por uma reforma monetária de 18 anos atrás e de algum juízo fiscal, adicionados ao fenomenal ganho das commodities, que está passando, mas, enquanto existiu, alforriou o país da dependência externa. Mas a inércia da prosperidade - como antes das reformas liberais -, trouxe de volta a complacência e enxotou o ímpeto reformador, que outra vez se faz necessário para desestagnar o crescimento. Só que os problemas se acumulam, embora invisíveis à sociedade. É de onde vem a aversão a reformas, como da previdência, com a idade média da aposentadoria em 53 anos, enquanto a população envelhece e a expectativa de vida aumenta. Apesar da infraestrutura ruim e de o governo contar centavos para investir míseros 2% do PIB ao ano, mal cobrindo a depreciação de ativos públicos, de estradas a hospitais. Para um novo despertar “Além da euforia”, título sugestivo do livro dos economistas Fábio Giambiagi e Armando Castelar Pinheiro, traz uma seleta das inércias que atrasam o desenvolvimento pleno do país. E algumas propostas. Eles buscam a síntese entre os modelos desenvolvimentista, como se vê a presidente, e o liberal. A fusão desses conceitos dá o mapa da estrada para embalar o investimento, assentado no grande mercado de consumo permitido pelos avanços sociais. As oportunidades já estão todas ai para a multiplicação do capital. Falta romper a inércia. É inalienável a coordenação do governo para fazer acontecer, o que requer enfatizar a produtividade. Ela resulta de coisas já sabidas: educação competente, impostos não abusivos, condicionados ao gasto público com maior qualidade, poupança adequada, energia barata. É o novo despertar, dizem os autores. Ou será a chatice habitual: voos de galinha do PIB, inflação, Copom. Merecemos melhor diversão.
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