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Com a falência assistida da moeda comum em estágio avançado e duas das maiores economias da união monetária, Espanha e Itália, no rumo da bancarrota, onde já se encontram outras três (Grécia, Irlanda e Portugal) e uma a caminho (Chipre), das 17 que formam a Zona do Euro, os líderes europeus foram a Bruxelas, o QG da União Europeia, exaustos e feridos. Saíram com um bandeide. Mas pareceram curados. Com as atenções voltadas para a semifinal da Eurocopa, em que a Itália derrotou - numa ironia do destino - justamente a Alemanha, cujo governo de Angela Merkel tem bloqueado o socorro às economias endividadas que não entreguem a soberania fiscal aos eurocratas de Bruxelas, a cúpula, na quinta e sexta-feira, não atraíra a atenção. Esperava-se mais do mesmo, tal como nas outras dezenas de cupulas desde que a Grécia revelou-se insolvente, no fim de 2009, expondo não só a sua nudez, mas de toda a união monetária. Mas aconteceu o improvável: saiu um acordo, ou um plano para que se faça um plano. Depois de 13 horas de reunião, às 4 da madrugada, em Bruxelas, os dirigentes europeus soltaram um comunicado às pressas, revelando, talvez, o receio de que a chanceler alemã voltasse atrás, segundo o qual o sistema bancário de cada país será submetido à supervisão de um organismo comum, provavelmente ao Banco Central Europeu (BCE). Quando tal sistema estiver estabelecido, os governos cujos papéis de sua dívida soberana (pública) tenham sido repelidos pelo mercado (Grécia, Portugal) ou negociados a taxas aviltantes que os condenam à moratória (Espanha, Itália) serão servidos diretamente pelo fundo de estabilidade do euro, ESM, na sigla em inglês, de € 500 bilhões, em fase de aprovação nos parlamentos regionais. O da Alemanha, por exemplo, aprovou-o na noite de sexta-feira por folgada maioria. Até que o ESM esteja constituído, os países serão atendidos pelo fundo similar já existente, o EFSF, de € 700 bilhões, cujas regras serão modificadas para que possa absorver papéis soberanos em poder da banca e não, como hoje, apenas socorrer governos, condicionando a ajuda à aceitação de um rígido programa de austeridade fiscal. A volta da sociopatia A recusa a este compromisso era a condição da Espanha, que obteve de Bruxelas ajuda de até € 100 bilhões para resgatar seus bancos, mas sem entregar a soberania fiscal à UE, ao BCE e ao FMI (Fundo Monetário Internacional), a chamada troica, cujos deslocamentos em Atenas para supervisionar os cortes de gastos impostos ao governo grego exigem carros blindados e escolta armada. Para os gregos, os auditores europeus e do FMI, chamados todos de alemães, numa expressão de antigos ressentimentos, representam uma força invasora. A crise fez emergir das catacumbas o sentimento nacionalista - uma velha sociopatia da Europa, o que discorre sobre as chances da união política e fiscal da Zona do Euro melhor que os profundos problemas econômicos e financeiros da região. União de incongruências A entrada dos fundos EFSF/ESM nas operações de resgates dos papéis soberanos, portanto, também da banca encrencada, era condição posta como inegociável pelos primeiro-ministros da Itália, Mario Monti, e da Espanha, Mariano Rajoy, ambos apoiados por François Hollande, o presidente da França, para quem precisa haver também um programa de investimentos públicos comunitários bancado por fundos europeus. A Itália vem pagando 6,4% para vender os seus papéis de 10 anos. A Espanha, mais de 7%. A Alemanha financia a sua dívida a apenas 1,5% ao ano; a França, 2,7%, pouco mais do que Espanha e Itália pagavam até a Europa entrar em seu inferno. Todos entraram num turbilhão pelas incongruências insolúveis da união europeia: a falta de provedor de liquidez em última instância, função dos bancos centrais nos países com moeda própria, e a incapacidade, portanto, de depreciá-la. Merkel quis melar o jogo O que os líderes concordaram em Bruxelas ainda é uma gambiarra, já que o resgate da banca será pelos fundos de estabilidade e não pelo BCE. Mas todos concordaram? Merkel retornou na sexta-feira querendo vetar a exclusão da obrigatoriedade dos programas de austeridade. E Monti e Rajoy saudaram a conquista sobre os “malvados“ alemães. A notícia distendeu os mercados no mundo, levando até o dólar a se depreciar no Brasil, recuando para R$ 2,01, também graças ao BC, ao reforçar a onda de otimismo vendendo dólares para entrega futura. O alívio, como tudo no mercado financeiro, tem uma pitada de exagero. Ainda que Merkel abra o coração, tais medidas terão efeito sobre o saldo de dívida dos países em apuros, não sobre o fluxo e déficits, dependentes da redução da rede de proteção social e de reformas que os tornem competitivos. Na Europa da crise não há vencedor. Alegoria da assombração Merkel diz que o euro será viável quando existir a união fiscal, o que, afirma, pressupõe a união política. A própria união bancária, em sua visão, só implica um seguro de depósitos se cada país abrir mão de sua soberania fiscal para um ente superior em Bruxelas. Quais as implicações do sonho de uma Europa única? Antes deve-se falar dos pesadelos. Na França, por exemplo, Hollande vai propor ao parlamento a redução de 62 para 60 anos do teto da aposentaria. É de 67 anos na Alemanha e Holanda. Como seria num esquema único? E o acordo nuclear da França com o Brasil? E o da Alemanha com Israel? E o gasto público? Quem paga a conta? Na França, chega a 54% do PIB. Merkel diz que não será a Alemanha. Afora a indústria alemã, não há competitividade na Europa diante da China. São tantos os óbices, que a impressão, quando Merkel diz estar pronta a ajudar depois da união total,é que ela parece cogitar a desunião. O medo de entrar para a história como coveiro do ideal paneuropeu assombra a todos eles.
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