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O empresariado está reticente em ampliar o investimento produtivo, mas os negócios continuam muito bons para a maioria das atividades, esticando um ciclo de expansão não captado pelo desempenho do PIB (Produto Interno Bruto). Por mais surpreendente que seja, está é a realidade transmitida pelo IBGE com os dados do emprego e inflação. A taxa de desemprego medida pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas recuou em maio para 5,8% da População Economicamente Ativa (PEA), vindo de 6% em abril - o que consegue ser, apesar do ambiente hostil na economia global, 0,6 ponto percentual menor que a taxa de maio de 2011. Entre as seis regiões pesquisadas, Salvador teve a maior taxa de desemprego (8%). Porto Alegre, a menor (4,5%). Com o ajuste sazonal, a taxa de desocupação cedeu de 5,7% em abril para 5,4% em maio, estabelecendo novo piso histórico do desemprego na pesquisa do IBGE. Tal distensão, normalmente associada a aumento da renda, que subiu 4,9% em maio comparada a 2011, elevando para R$ 1.725,60 o rendimento médio dos assalariados, tem se dado sem sinal de inflação. O IPCA-15 de junho, prévia para a inflação mensal dos preços ao consumidor, decresceu de 0,51% em maio para apenas 0,18%. Em doze meses até o meio de junho, a inflação acumula aumento de 5%, contra 5,05% na mesma métrica até maio, aproximando-se da meta central fixada pelo governo ao Banco Central, 4,5%. A tendência do IPCA para o mês de junho completo é de quase estabilidade, trazendo outro reforço à renda real - e, portanto, ao aumento do consumo. A massa salarial real, ou seja, descontada a inflação, apresentou alta interanual de 7,5% em maio, ante 8% em abril. No acumulado até maio, a massa de salários pagos avançou 6,8% sobre igual período de 2011. Foi o maior aumento nesta base de comparação na série do IBGE (só fica atrás do aumento de 7,4% entre janeiro-maio de 2007/06). A tranquilidade do mercado de trabalho não é absoluta, como se vê pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), apurado pelo Ministério do Trabalho, que mede a situação do emprego formal em todo o país. A pesquisa do IBGE pega uma amostra de regiões, mas apura também a situação do emprego informal. Ambas se complementam. Dependência arriscada O conjunto de indicadores divulgado pelo IBGE é bastante positivo e consistente, embora o resultado mascare situações distintas para o universo de atividades. No agregado, o desemprego murchou devido ao aumento interanual de 2,5% do total de ocupados em maio, ou de 1% comparado a abril, e de 1,9% da PEA (ou de 0,2% frente a abril). A divisão desses dados por setores descreve melhor o momento da economia e as causas da desaceleração do produto. A redução da taxa de desemprego, por exemplo, foi puxada pelos setores de serviços - que criou em maio 4,9% mais postos de trabalho que em igual mês de 2011 - e construção civil, +4,8%. Na contramão, o nível de emprego na indústria manufatureira recuou 1,4%. As importações industriais e os baixos investimentos explicam o ritmo pífio do PIB. E indicam a crescente, arriscada dependência da economia do nível do consumo. Indústria segue fraca Os números do Caged revelam o viés da menor tração do mercado de trabalho, mas não ao ponto de desafogá-lo. O Caged e a pesquisa do IBGE parecem indicar, segundo o economista Fernando Montero, que o emprego com carteira estagnou, substituído, talvez, por contratos informais. Em tempos de incertezas, o emprego formal é adiado, tal como os investimentos, dado o elevado custo da formalização. O saldo entre admissões e dispensas com carteira assinada chegou a 139,7 mil em maio, resultado menor que em maio de 2011 (252,1 mil). Na série mensal ajustada pela consultoria LCA, o saldo líquido de vagas caiu de 91,9 mil em abril para 56,6 mil em maio, menor nível desde junho de 2009. A indústria de transformação criou apenas 20,3 mil empregos líquidos em maio, o que não espanta, pois se encontra praticamente estagnada desde meados de 2010. Cenário deve melhorar Surpresa é constatar que o emprego em construção civil e serviços, incluindo o setor público, rateou em maio. A geração de empregos na construção recuou de 40,6 mil novos postos em abril para 14,9 mil em maio. Com 47,2 mil vagas, o setor de serviços ofereceu 60% menos empregos que em maio de 2011. Comércio também puxou o freio, com 9,7 mil empregos líquidos, contra 33,7 mil em abril. A essa altura, exceto pela Europa, não se vislumbra nada grave. Os estímulos ao consumo e o investimento público, apesar da lentidão, devem acelerar a economia e garantir um 2013 aquecido. Mas, mantido como está, com o investimento total miúdo, a decepção virá adiante. Menos papo e mais ação O que há a questionar é a relutância do governo, sobretudo diante da crise que enfraquece os países avançados e emergentes de ponta, como China e Índia, em tirar proveito do relativo bom momento da economia para liderar um salto de qualidade. As condições intactas do consumo, e ainda mais dos fatores que o acionam, como o emprego, a renda real e o crédito, não deveriam servir apenas para o governo se sentir seguro para continuar desinchando a taxa básica de juro. Ou para aumentar o preço dos combustíveis, atendendo o programa de investimentos da Petrobras. É uma prioridade, mas tanto quanto o problema da indexação - motivo de a inflação ter piso. Ou da reforma federativa - primeiro passo para discutir a dimensão do Estado e avaliar o que é devido e o que pode ser cortado. É o jeito certo de tratar o ônus tributário - principal causa de a indústria perder competitividade. Em suma: menos retórica e mais ação.
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