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Não vai faltar desgraceira na agenda das muitas cúpulas entre os poderosos globais, começando pela do Grupo dos 20 (G20), segunda e terça-feira, no balneário de Los Cabos, México, seguida de outra, em petit comité, dos líderes da Alemanha, França, Itália e Espanha, em Roma, na sexta-feira, e concluindo com a grande conferência da União Europeia e do euro, dias 28 e 29, também na capital italiana. No intervalo, a diretoria do Federal Reserve, de Ben Bernanke, se reúne na quarta-feira, já passado o G20 e a eleição do novo governo da Grécia, neste domingo, debaixo da expectativa de que saia outro programa de emissão de dólares - o tal quantitative easing, ou QE, que seria o terceiro, para agitar a pasmaceira da economia dos EUA. A recuperação continua, mas está fraquinha como luz de vela. A claque dos mercados torce para que venha o QE3, embora os dois anteriores servissem mais para depreciar o dólar, que favorece as exportações do país à custa dos outros, e içar as bolsas, não para acionar o crédito ao consumo. A banca até tenta, mas o consumidor americano, assustado com o desemprego e com a deflação dos ativos, como do valor da casa hipotecada, tem preferido se desendividar. A depender do rumo da rebordosa europeia - com a banca da Espanha pela bola sete, e à espera do socorro pedido pelo governo trapalhão de Mariano Rajoy aos pares europeus, e a Itália na fila, candidata dos mercados a sucumbir depois do olé aplicado aos espanhóis -, não se descarta algum gesto heróico do Fed. E com aplauso do presidente Barack Obama. Candidato à reeleição, sua dianteira sobre o rival do Partido Republicano Mitt Romney diminui quanto mais cresce a dúvida sobre o futuro da economia. O que Bernanke fará talvez nem ele saiba bem, como sugeriu em sua última audiência ao Senado dos EUA. “São tantas emoções”, poderia ter dito, parafraseando o rei Roberto Carlos. Depende dos lances da crise, como também declarou, entre chorosa e irritada, a chanceler Angela Merkel, ao falar ao parlamento alemão. Estamos nós, eles, a presidente Dilma, o G20, o primeiro-ministro eleito na Grécia, Wall Street, esperando as luzes de deuses tão reticentes. Os pelados no lamaçal Todos pressionam Merkel para que faça algo para superar a crise, e com razão. O euro é uma construção comunitária, mas sustentada no poderio econômico da Alemanha. Que lucrou muito com a moeda única. Boa parte da clientela de sua eficiente indústria está na Europa. Os déficits dos parceiros foram cobertos por empréstimos da banca alemã, assim como pela francesa. E estavam todos felizes até que a crise desnudou quem nadava pelado, conforme a hilária imagem do bilionário Warren Buffet. O que Merkel fará? Ela responde dizendo o que não fará antes de cogitar o que pode fazer. E poderia pouco. A Alemanha, disse ao Bundestag - e talvez também ao presidente da França, François Hollande, que cobra dela mais apoio ao crescimento que à austeridade, e ao G20 -, não tem “uma fortaleza infinita nem uma capacidade ilimitada” para tirar por si própria os europeus do lamaçal. Está claro o que ela quer: que cada país viva por si, daí a austeridade, sem que Alemanha se assuma como provedora do euro. Federalismo sem doação O federalismo que Merkel elabora não seria como o alemão, o nosso e os dos EUA, em que há transferências fiscais das regiões mais prósperas para as mais fracas. Mas, aí, como colocar de pé a união política e fiscal, adicional à monetária, de que todos falam? A crise europeia já passa de dois anos, mas não ata nem desata. E isso depois de três resgates de países insolventes (Grécia, Irlanda e Portugal). De o Banco Central Europeu (BCE) emprestar meio doando mais de 2 trilhões de euros à banca e Tesouros da região (em troca de papéis de dívida soberana repelidos pelo mercado). Uma dúzia de cúpulas entre os líderes europeus (apresentadas uma depois da outra como a última sobre a crise) e dezenas de encontros informais. Da comédia à tragédia O que começou com a eleição de George Papandreou para chanceler da Grécia, em outubro de 2009, seguida de pedido de socorro porque o país estava na lona, pode acabar em Atenas no domingo com outra eleição. O embate é entre forças que dizem apoiar o euro, mas são contrárias à austeridade como contrapartida para os empréstimos de solvência, e as que a acatam. Ganhe quem for e nada vai mudar. A Grécia é um cisco em meio às contradições dessa união monetária disfuncional e, com o avançar da crise, ao diagnóstico comum a todo insolvente: menos gasto, mais imposto, recessão para cortar salário real com o efeito de depreciação cambial. Em tese, o país ficaria competitivo. Na prática, o crescimento se foi e a crise se tornou social e política. Essa espiral vai engolir tudo e todos. Bafafá de dimensão épica Sem riscar as dívidas de países como Grécia e Espanha, e olhe que a banca já aceitou perder 100 bilhões de euros dos papéis gregos, a volta do crescimento será penosa, talvez impossível pela falta de moeda própria para depreciar, o que põe todo o ônus nos salários. Os pacotes de ajuda não ajudam nada, pois só servem para rolar as dívidas vincendas. Grécia já recebeu dois pacotes de 240 bilhões de euros e continua em recessão, aliás, desde 2008. É muito surreal. A ruína da Espanha veio com o estouro do mercado imobiliário, que inadimpliu a banca, socorrida pelo governo. Depois, o governo fraco pelos fortes. Os fortes apelarão a quem? É como a dança da cadeira, em que perde quem fica de pé quando a música para. O baile cansou a Alemanha. Se ficar, terá de bancar o grosso dos déficits dos sócios europeus. A parte alemã já chega a 600 bilhões de euros na clearing dos bancos centrais. Se sair, perderá até 10% do PIB, segundo o economista Satyajit Das, além de perdas intangíveis imprevisíveis. A confusão, diz o analista Wolfgang Münchau, toma proporção épica.
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