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Habitualmente loquazes em meio à cacofonia em que se transformou a Zona do Euro, o silêncio dos governantes europeus nos últimos dias tem gerado reações conflitantes, indo do alívio ao medo. Para o mercado financeiro, seria prenúncio de algo forte, devido à periclitância dos bancos da Espanha - e trataram de passar para frente tal sentimento, distendendo a rede global de capitais. Foi fogo de palha. Com a consciência pesada, o mundo financeiro busca agarrar-se a qualquer fiapo de esperança, indiferente ao que dizia o pensador alemão Friedrich Nietzsche, segundo o qual a espera “é o pior de todos os males, porque prolonga os tormentos do homem”. Como que a lhe dar razão, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, indicou na terça-feira, em entrevista à TV pública do país, que o governo alemão deverá continuar com sua abordagem fragmentada para a Zona do Euro, ao anunciar, segundo relata a Reuters, que não se deve prever “nada grande” da cúpula européia, nos dias 28 e 29. A expectativa é que os líderes europeus se encontrem em Bruxelas para aprovar um plano de união bancária, defendido, entre outros, pelo italiano Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), e pelo belga Herman Van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, o órgão principal da União Européia (UE). A proposta é um primeiro passo para a integração de fato de uma área econômica com moeda apátrida, já que sem união bancária, fiscal e política. Cada país faz o que quer, exceto controlar a própria moeda, seja para administrar o seu valor de troca ou mesmo monetizar em casos extremos, como agora, as dívidas vincendas. A Europa do euro está mais para um Equador ou Panamá, países que abdicaram da soberania monetária pelo dólar, que para EUA ou Brasil, regimes federativos como deveria ser a Europa para que a moeda comum faça sentido. As contradições desse arranjo eram sabidas desde o nascimento do euro uma década atrás. Mesmo assim foi levado adiante pelos pais da paz pan-européia, ao entenderem que a união num continente com um passado guerreiro superaria qualquer dissintonia. O euro foi o termo encontrado para o fim do veto das potências vencedoras da 2º Guerra à reunificação alemã, em 1990, afastando a desconfiança da França, Inglaterra, Rússia e EUA com uma Alemanha “forte”. Os perigos da decepção Sem entender a história não se entende a crise atual, econômica e financeira, mas, essencialmente, política. Com a maior economia da Europa, a Alemanha inspirou os termos da integração, que lhe foi benéfica, ao fazer da vizinhança a clientela preferencial de seus bancos e de sua poderosa indústria. Agora, quando tudo deu errado, a Europa espera dela mais do que ela se vê responsável e devedora. A Alemanha não pode, como amplamente assumido, ao menos por ora, oferecer um porto seguro para a crise da dívida européia, como diz no Financial Times o analista econômico Satyajit Das, um dos mais argutos observadores dos movimentos dos mercados. E não pode, diz, porque “não importa como esta crise termine, ela será ruinosamente cara para os alemães”. E muito mais para quem se julga imune, até pelos sacrifícios auto-impostos ao bem-estar, às mazelas da crise. 40% do PIB ameaçados A economia alemã é das poucas que tem crescido desde 2008. A taxa de desemprego (abaixo de 6%) é menor que em 2007. Os trabalhadores têm aumentos salariais. Em maio, títulos públicos de dois anos de prazo foram vendidos à taxa anual de 0,07%. Mas tem o outro lado. As exportações movimentam 40% do PIB da Alemanha, mais do que tal relação na China, sendo que 60% do exportado têm a própria Europa como destino (40% na Zona do Euro), que entrou em recessão. E lhe será fatal na hipótese de um “evento” - o termo da moda para algo grave, como a saída da Espanha do euro. Ou a quebra de um banco. Merkel espera eleições É o que explica a afirmação de Satyajit Das de que a Alemanha vai pagar a conta do euro de qualquer jeito. Em caso de dissolução da moeda, diz, estima-se que o PIB perca de 1% a 10% entre o primeiro ano do trauma e os seguintes. Tem precedente. No auge da crise, em 2008, a economia recuou 5%, maior queda desde 1945, sobretudo por causa do declínio das exportações. O euro é o abraço dos afogados. Ao dizer que espera da cúpula européia, no fim de junho, um plano de trabalho “para afirmar que precisamos de mais Europa”, segundo suas palavras, Merkel certamente teve tais considerações em mente. Ela sabe que precisa ceder, mas passo a passo, avalia o economista alemão Wolfgang Münchau, para ganhar tempo até as eleições gerais alemãs, em setembro de 2013. Mas a Europa pode esperar? E o mundo? Solução a chibatadas Duas chibatas ameaçam os planos do establishment alemão contra a crise, até agora sustentados em exigências de austeridade e perda de soberania fiscal de quem ficou insolvente na área do euro: uma quebra de um grande banco, sendo que os da Espanha reúnem todas as condições para exercer o papel de vítima, ou um governo “demitir” o euro, certo de que ficará melhor, apesar da depressão inicial. Cenários assim circulam há dias entre os bancos europeus. Draghi, do BCE, disse esta semana que, como está, o euro é insustentável. Como a Espanha conseguiu captar € 2,1 bilhões em papéis de dois a dez anos, na quinta-feira, o estresse baixou. A suspeita é que fontes domésticas garantiram o sucesso, diz o Financial Times.
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