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O mundo tem algumas dúvidas: por exemplo, se a Grécia vai ou não sair da Zona do Euro; se Espanha, Itália e Portugal, entre outros, conseguirão escapar do redemoinho; se a desaceleração da economia chinesa será suave; se os EUA alavancarão o crescimento, puxando a economia global, passada a eleição presidencial em novembro. Aconteça o que for aos carros-chefe da economia global, formou-se a convicção de que nada será como antes. Não no sentido de que os EUA, por exemplo, irão à breca - como a Grécia já foi, faltando só combinar o tamanho do estrago: se disseminado entre os europeus ou contido entre os gregos. Ou que a China corre o risco de mergulhar noutro ciclo de regressão, como já houve em sua história milenar. As relações econômicas é que serão outras, para simplificarmos os desdobramentos que se avizinham aos deslocamentos de capital, caso do revival industrial nos EUA, deixando de fora questões complexas da geopolítica e de possíveis rupturas culturais entre regiões. Os indícios de retomada da produção de petróleo e gás em larga escala nos EUA, por exemplo, estão mal contemplados nos cenários globais. Vários relatórios recentes sugerem que o uso de novas tecnologias não só viabilizou a exploração das vastas reservas de shale, com alto teor de gás, como tem permitido recuperar campos exauridos ou com produção decrescente de petróleo. Não é um dado comezinho. Estudo recente do Citibank, com base em pesquisas geológicas do governo, diz que os EUA chegarão à década de 2020 exportando gás e com dependência residual de importações de petróleo, considerando o Canadá e o México como fornecedores naturais. A saída gradativa do mercado do maior consumidor de petróleo do mundo, da ordem de 20 milhões de barris/dia, um terço importado, terá consequências. Muitas outras também estão em desenvolvimento, como as restrições reguladas por legislações nacionais e regras multilaterais para os bancos não poderem criar crédito dissociado da razão prudencial de seus ativos e capital próprio. A falta delas ou a desmontagem do que havia levou o mundo à indigestão de dívidas e à desalavancagem – um processo dolorido que levará anos até se tornar palatável. O endividamento deve até crescer, na Europa especialmente, devido à exaustão do veio tributário e às tentativas de por a economia em movimento à base de investimentos. Em qualquer caso, tais cenários indicam que o crédito ao setor privado será bem menor no mundo em relação à situação pré-crise, convivendo com ondas simultâneas de inflação e deflação, viés atual das commodities por conta de outra exaustão – o crescimento da China impulsionado por manufaturas. Iludimo-nos com a China Esse pano de fundo da crise mundial e suas sequelas não encontram o Brasil preparado para passar ao largo, como pôde fazer depois de 2008, segregando as marolas recessivas a 2009. O que se constata é que o Brasil aproveitou muito pouco a abertura da China na última década – desde que se associou à Organização Mundial do Comércio -, especialmente para defender a indústria frente à valorização das commodities. Iludimo-nos com o ganho marginal desse fenômeno sobre a renda e deixamos os governos espremerem a riqueza existente como se não houvesse amanhã, descuidando das reformas modernizantes. A economia emparedada O economista Fernando Montero diz num pequeno ensaio que “a queda de preço das commodities, aparentemente o lado bom da crise, trará impactos deflacionários, enquanto as incertezas globais prejudicam a nossa demanda”. Os dois movimentos abrem espaço para menos juros e mais câmbio. “Apesar dessa combinação feliz, o resultado do PIB potencial, suspeitamos, será péssimo, como vem sendo desde 2009.” Entre os itens da demanda, diz ele, o investimento se candidata a ser o mais impactado pelo quadro global. Tende a ser adiado devido às incertezas, avalia, e, no ínterim, substituído por consumo, tal como ocorreu em 2009. “Se a isso somarmos uma perda na relação de trocas da balança comercial, que significa menos renda, teremos um consumo maior sobre uma renda menor, portanto, menor capacidade de poupança da economia.” Em síntese, a economia está emparedada. Não há ajuste indolor Diferentemente de 2009, continua Montero, partimos de um déficit maior e de um PIB potencial notoriamente menor. Resultado: “menor capacidade de oferta (interna e externa) para acomodar a demanda agregada carregando consigo mais consumo e menos investimentos”. É fato, diz, que juro menor ajudará a poupança pública. Para se transformar em mais poupança agregada, porém, o consumo precisa cair em relação ao seu investimento, isto é, à sua renda. Mas nem o desempenho recente do investimento público, sobre o qual o governo tem total controle, parece promissor. Está ruço. Carência de criatividade O que complica o panorama é a percepção do empresariado de que no governo, ou mais exatamente no entorno do ministro Guido Mantega, há o entendimento segundo o qual a lerdeza da economia reflete a escassez da demanda, não a exaustão transitória do consumo movido a dívida e a desconfiança na capacidade do setor público de por o investimento para avançar. Um diagnóstico equivocado - ou correto lá atrás, mas não agora - pode implicar o agravamento da situação. A sugestão é que falta pouco mais de criatividade às concepções da presidente Dilma Rousseff, sobretudo a visão para enfrentar não bem a crise, mas as transformações globais que começam a emergir.
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