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O comportamento da taxa de juros básica (cadente), do dólar (para cima) e da inflação (recuando) está, em princípio, em linha com os melhores objetivos da política econômica. E, no entanto, paira no ar a impressão de que há mais sorte que indução nestes resultados. Ou, alternativamente, há mais jogo de cintura do Banco Central, ao adequar suas mensagens ao distinto público à luz do que avalia como provável entre as reuniões do Copom, sem o menor constrangimento de mudar de opinião na véspera e depois fazer cara de paisagem. A flexibilização do modus operandi do regime de metas de inflação, conduzido basicamente pelos arranjos da Selic e por uma cadeia de comunicados do BC à sociedade, tem dado certo até aqui, ainda que, como bem lembrado pelo professor da Faculdade de Economia da USP e consultor da LCA, Carlos Eduardo Gonçalves, as regras sejam outras. “Como lembram os fundadores teóricos do regime”, diz Gonçalves, o sistema de inflação se baseia na meta de inflação prevista, não na meta de inflação atual. Essa é a sua importância: dar um parâmetro sobre o futuro, que por definição é sempre incerto. Esse é o papel da meta de inflação. O governo decidiu que ela deve convergir para a taxa de 4,5% de variação anual, com teto de 6,5%. Tais limites às oscilações dos preços tornam a vida econômica menos imprevisível. O presidente do BC, Alexandre Tombini, assegura que enquadrar a inflação na meta central é a missão da política monetária. Ele foi o encarregado, em junho de 1999, de implantar esse sistema, bem-sucedido em vários países, como meio de ancorar as expectativas da inflação. Isso é o que poucos entendem: harmonizar as expectativas. Para isso é que serve tal sistema, com a taxa básica de juro como seu instrumento. Não é para combater a inflação corrente, mas para que nós todos tenhamos uma referência sobre o que ela será adiante. No limite, se tivermos máxima confiança no taco do BC, sobretudo os empresários receiem o estrago dos juros caso saiam a remarcar os preços desabridamente, a inflação sempre será o que a meta indicar. Futuro feito no presente É por isso que o BC emprega com tanta frequência em seus informes a expressão “cenário prospectivo”. É um exercício de futurologia, mas não para adivinhar o futuro, como tentam muitos economistas, e, sim, para induzir o que devemos achar que o futuro será. Só que, atento ao ritmo do crescimento da economia, que o governo deseja acelerar, e à taxa cambial, que quer desvalorizar, o BC não dialoga com o futuro, mas com o presente. Em janeiro, como afirma o economista Fernando Montero, o relatório de inflação do BC sugeria que a meta não seria alcançada este ano nem em 2013.Na ata do Copom seguinte, o BC surpreendeu, ao anunciar a elevada probabilidade de que a Selic chegasse a um dígito. Na ata de março, deixou de falar em “ajuste moderado” e acelerou para 0,75 ponto de percentagem o corte da Selic, com dois diretores votando contra. Aproveitando o momento A resposta veio rápida, com o “cenário prospectivo” do mercado já prevendo a Selic recuando para 8,5% a 8%. Uma semana depois, a ata do Copom corrigiu tal leitura, avisando que a Selic iria estacionar num patamar ligeiramente acima dos “mínimos históricos” (8,75%). E o que aconteceu? O BC trouxe a Selic para 9% na última quarta-feira – como antecipara -, mas sugeriu por meio de um jogo de palavras no breve anúncio dessa decisão que o ciclo de queda poderá continuar. Está claro que o BC vem usando as oportunidades, como o ritmo mais lento da demanda e a continuidade do viés deflacionário da economia global, para mirrar a Selic até onde der. Se depois tiver de elevá-la, o novo ciclo começará de um patamar mais baixo. Provavelmente, recorrerá ao arsenal de medidas prudenciais para, via crédito, dar um tranco, caso a inflação ressurja com força, mas lá para 2013. Sem preparar o enxoval Não é que o regime de metas foi abandonado pelo BC, como alguns se apressam a criticar. Mas, enquanto a inflação estiver perto do alvo central de 4,5% e não ameaçar roçar o teto de 6,5%, e até o passou em 2011, o BC será companheiro da Fazenda para as prioridades da vez: apressar o crescimento econômico e afixar o câmbio entre R$ 1,90 e R$ 2,00, para dar algum gás à indústria, encarecendo a importação. E a inflação? Se reaparecer, deverá ser em 2013. Faltam nove meses até lá. É o tempo para o governo preparar o enxoval de uma política econômica menos induzida pelos juros grávidos. Parece legal. Só que não se vê preparativo nenhum, como se o governo só desse atenção à dieta da demanda, que nunca esteve magra, não tende ao raquitismo e aparenta ter voltado a engordar. E neca do investimento crescer. Preocupação assimétrica Olhar para frente, segundo Gonçalves, mostra um quadro diferente do visto pelo retrovisor ou pelos lados. O que lhe preocupa é que, mesmo com o desemprego baixo e a demanda não tão fraca, o governo tem atribuído peso assimetricamente elevado para a desaceleração da economia, inclusive ignorando os resultados das medidas acionadas para promover o consumo, como a própria queda dos juros. O efeito de tais medidas “pode não ser muito grande, até porque há pouco passamos por ciclos de bens de consumo duráveis”, diz. Não há demanda reprimida. Mais estímulos pegarão a economia em recuperação cíclica. “E a inflação, apesar de jazer morta”, diz, “ressuscitará no terceiro trimestre”. Mas se a crise lá fora se agravar, concede ele, ninguém sairá do reino de Hades para nos assombrar. A ver.
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