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O barulho em torno da reestatização unilateral da petroleira YPF pela presidente Cristina Kirchner revela a ignorância do grosso dos analistas sobre a história da Argentina. Não marca, como publicou o The Wall Street Journal, nenhum divisor de água quanto ao controle do Estado sobre a economia. Isso tem sido uma constante secular na Argentina. Nem, conforme o comentário mais frequente, ela emulou os passos do governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Para os mais novos, o “chavismo”, como manifestação das políticas populistas na gestão da economia, é uma novidade na América Latina, com seguidores na Bolívia, de Evo Morales, e no Equador, de Rafael Corrêa. É uma injustiça com os discípulos de Juan Domingos Perón, contudo, atribuir à influência de Chávez o que ele próprio absorveu do “peronismo”, embora se apresente como evangelizador do que chama de “bolivarianismo” - um tributo a Simon Bolívar, herói venezuelano que liderou várias guerras de independência na América espanhola. Kirchner é desde sempre, como seu marido Néstor, falecido em 2010 e que ela sucedeu na presidência em 2007, do Partido Justicialista – obra de Perón, vulto do populismo-nacionalista na América do Sul. Tais precedentes compõem o substrato da virtual encampação da YPF, como também a volta do movimento pela devolução das ilhas Malvinas pelos ingleses e mesmo a relação de amor e ódio com Brasil, unidos pelo Mercosul e separados pelos vieses da história: a expansão das riquezas de um, com crescente reconhecimento internacional, ao lado do declínio do outro, que era secular e se ampliou com a moratória de sua dívida externa em 2001 e até hoje ainda não normalizada. Um pouco de história ajuda a entender o gesto extremo de Kirchner, ao enviar ao Congresso projeto de lei que expropria 51% das ações da YPF, privatizada em 1992 no governo peronista de Carlos Menem (com o voto da então deputada também peronista Cristina, como diz o jornalista argentino Ariel Palacios). Desde 1999, a YPF estava sob o controle da Repsol, petroleira da Espanha, ela mesma ex-estatal, privatizada em 1985. É incrível como essas peças se conectam. Contencioso sem fim Ajuda a entender também parte do contencioso sem fim nas relações bilaterais com o Brasil - durante décadas um gigante sombreado pelo poderio e pela riqueza cultural da Argentina. Nos últimos 20 anos, o fosso se ampliou, mas a favor do Brasil. A indústria da Argentina foi sucateada. O que sobrou de moderno virou um apêndice do parque fabril brasileiro, como ilustra os nexos do setor automotivo. Isso tudo está por trás do que Kirchner definiu como a “soberania” de seu governo. A economia é a ponta visível. Ela diz que a Repsol deixou de investir – queixa que se estende à Petrobras, a terceira maior petroleira com operações na Argentina -, preocupando-se mais em lucrar e remeter dividendos à matriz. A Repsol alega que iria investir US$ 3,5 bilhões este ano. A parte submersa é política. O populismo exaurido O modelo econômico argentino, na verdade, se exauriu. Sem recursos externos, devido à moratória, e sustentada no boom das commodities, hoje incerto, a Argentina conseguiu com os Kirchner agradar a base de apoio do peronismo, majoritário entre os pobres e o remanescente do operariado, enquanto pode bombar o gasto público e o crédito - meio como o que levou ao Pibão no último ano do governo Lula. O PIB da Argentina cresce desde 2003 o triplo da taxa de expansão do Brasil no período graças a tais impulsos. A inflação há muito já foi desestabilizada. O governo interveio no Indec, o IBGE local, de modo que, enquanto o órgão anuncia inflação anual abaixo de 10%, as consultorias dizem que passa de 25%. Os preços e tarifas congeladas completam o quadro que contribuiu para a débâcle do investimento. Vizinho problemático A exaustão do crescimento argentino é crescente, levando o governo a se apropriar do que está ao alcance, como a gestão dos fundos de previdência que haviam sido privatizados. As importações vêm sendo barradas pela mesma razão: a impossibilidade de o país financiar os déficits externos. A estatização parcial da YPF é mais um elo nesta longa decadência. Até há alguns anos o país exportava petróleo. Em 2010, virou importador. Mas o país tem grandes reservas de óleo e gás de xisto, cuja tecnologia de extração está viabilizada. A YPF detém boa parte destas reservas e não as explorava. Ai juntou tudo: a doutrina peronista, o declínio do país, a insolência de Kirchner, o oportunismo dos aliados, o ressentimento. A Argentina é parceiro e vizinho problemático. E não há muito mais a fazer para ajudá-la. A Europa humilhada O que vai ser do dissídio entre Buenos Aires e Madri exigirá muito da diplomacia dos dois países e dos aliados. Certamente o Itamaraty tem um papel a desempenhar no bastidor. Empresas e bancos espanhóis têm forte presença no Brasil e na Argentina. Kirchner talvez peça a ajuda da colega Dilma Rousseff, se o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, envolver a União Europeia para retaliar a Argentina. A impulsividade de Kirchner pode ser para a Espanha humilhada pela crise a chance de reafirmação do orgulho nacional. Para a Europa, a falta de reação pode configurar o fim de sua importância no cenário geopolítico. Tais sequelas são apenas especulações. Certo é que o capital estrangeiro vai guardar distância maior da Argentina. E não vai surpreender se mais grupos argentinos, como a Bunge no passado, se mudarem para cá. Vários deles já chegaram discretamente.
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