Casos graves de adulteração de alimentos têm sido denunciados nas últimas semanas. Para vc:
Falta fiscalização nas empresas por parte do poder público.
São crimes contra a saúde pública que precisam de punição severa.
Não são casos tão graves assim.
Não estou por dentro desse assunto.
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Análise da FGV: De onde virá o crescimento em 2012?

 

Consumo das famílias e o investimento fixo permanecem como os principais componentes de sustentação do crescimento, mas é pouco

27/3/2012 - 08:15 - Redação
 

IBRE*

Os indicadores do desempenho da economia brasileira no final de 2011 confirmaram a modesta recuperação do nível de atividade antecipada na edição de fevereiro do Boletim Macro IBRE/FGV. Longe de apontar para uma recuperação robusta, porém, eles sugerem apenas que o pior da desaceleração pode ter ficado para trás.

O “pode”, nesse caso, foi reforçado pelo desempenho algo surpreendente da indústria em janeiro, que, contrariando a totalidade dos prognósticos, revelou uma queda na produção sem precedentes desde a crise iniciada em 2008. Pior, a contração foi especialmente alta nos bens de capital — que experimentavam até então uma retomada mais firme do que a do total da indústria, permitindo antever aumento da capacidade de produção da economia — e nos bens intermediários, mostrando que o arrefecimento não resultou de um problema localizado.

Esses dados implicaram uma revisão, para baixo, nas estimativas para o nível de atividade em 2012. Continuamos a prever uma suave recuperação ao longo do ano, mas as projeções para o 1º trimestre têm agora menos brilho do que antes. Um corolário disso é que para que o PIB cresça 3% ou mais neste ano as taxas de expansão do PIB a partir do segundo trimestre terão que ser muito altas. Em média, bem mais do que o Brasil tem experimentado no último par de anos. A pergunta que naturalmente se coloca é: de onde virá esse crescimento?

Na raiz do lento crescimento esperado estão vários fatores. Pelo lado da oferta destacam-se as dificuldades da indústria de transformação, cuja competitividade está prejudicada pela valorização cambial e pelo lento crescimento da produtividade — a rigor, com queda em 2011. Na agropecuária, a produção das lavouras não deve ter neste ano o bom desempenho do ano passado. E dificilmente se pode pensar em crescimento mais forte dos serviços — por exemplo, para taxas de mais de 1% ao trimestre no restante do ano, que garantem algo como 2,5% anuais para o PIB, pois os serviços representam dois terços do VA total.

Pelo lado da demanda, as esperanças continuam voltadas para o consumo das famílias, impulsionado pelo crédito e pelo aumento da renda. Mas é lícito perguntar até que ponto será possível continuar com a expansão creditícia sem que apareçam sinais de saturação por endividamento excessivo das famílias ou pelo fim de ciclos de compras de bens duráveis. Além disso, o desemprego em patamar tão reduzido limita o espaço para aumentar o emprego e, portanto, a massa salarial.

Também se conta com uma recuperação mais robusta da formação bruta de capital fixo, que está na agenda para 2012; mas, a exemplo do que ocorreu no ano passado, a incerteza acerca dos desenvolvimentos da crise europeia pode jogar água fria num fogo que já não tem muita intensidade. A própria moderação do crescimento vai limitar o ânimo para novas inversões.

Jogando no time contrário está a evolução das exportações líquidas, que chegam a 2012 negativas pelo 7º ano consecutivo. Aqui, como no caso do investimento fixo, pesa a ameaça da recessão na Europa e a desaceleração na China, especialmente no primeiro semestre. Mas pesa especialmente a perspectiva de uma taxa cambial que dificilmente deixará a área da valorização que vem trilhando. Isso, apesar dos esforços das autoridades no sentido de restringir o ingresso de capitais do exterior com o uso e ameaças de uso do arsenal de medidas restritivas. No mesmo time figura a provável reaceleração da inflação no segundo semestre, depois do alívio representado pelas taxas acumuladas em 12 meses decrescentes que vimos experimentando e vamos continuar a experimentar por um par de meses ainda.

Em linha com as considerações anteriores, a média móvel trimestral do Indicador de Atividade Econômica (IAE) do IBRE vem crescendo desde novembro de 2011, mas atingiu apenas 0,5% em janeiro deste ano. Estimativas preliminares para fevereiro confirmam esse movimento, situando o indicador em 0,6% e a previsão para o primeiro trimestre em 0,6%.

Depois da débâcle de janeiro, as projeções da indústria geral apontam para uma recuperação de apenas 0,2% em fevereiro. Para os próximos meses os indicadores do IBRE indicam alguma retomada, mas nada de excepcional está no radar. Nesse sentido, ainda existe um risco de que a indústria de transformação tenha um desempenho medíocre nos próximos meses, ao passo que o comércio varejista continua em processo de desaceleração.

Essas previsões são confirmadas pelas sondagens do IBRE, que em fevereiro mostravam moderação do ritmo de recuperação de nível de atividade econômica. Houve avanços no âmbito do consumidor e do setor da construção e piora nos segmentos de serviços e comércio. A indústria de transformação andou de lado e continua a ser o setor mais problemático, tendo registrado piora das expectativas em fevereiro. A despeito do ajuste dos estoques no início deste ano, as perspectivas para o setor industrial continuam ruins. O enfraquecimento das previsões de produção e emprego também parece estar relacionado à desaceleração das encomendas à indústria, sendo que as expectativas para a evolução da demanda nos meses à frente pioraram tanto no mercado interno quanto no externo.

Um aspecto instigante, no morno quadro atual da atividade econômica, é o aquecimento do mercado de trabalho, onde indicadores reforçam a estabilidade das taxas de desemprego dessazonalizadas em patamar historicamente baixo. A previsão de 5,8% para fevereiro está em linha com essa tendência de estabilidade, o mesmo ocorrendo com a geração de postos de trabalho. Isso, com exceção da indústria e do comércio, cujos níveis de contratação têm oscilado mais. Outra questão perseguida neste Boletim é a da possível associação entre baixo desemprego e simultâneo aumento na formalização.

Na área da inflação, o recuo das taxas em bases anuais tem sido proporcionado, em boa medida, por altas na alimentação mais moderadas que as do início de 2011, movimento que deve se repetir no segundo bimestre deste ano. Mas nem todos os ventos estão soprando na direção da desaceleração. Mais uma vez, são os serviços que impedem reduções mais pronunciadas na taxa inflacionária.

No que toca ao exame das contas públicas, o ajuste fiscal anunciado não parece consistente com a contribuição que o setor público deveria dar à contenção da demanda agregada e, por conseguinte, apoio à política monetária na moderação das pressões inflacionárias. Isso, mesmo no cenário de cumprimento integral da meta de superávit primário.

Com um cenário internacional marcado por nova ampliação da liquidez global, a valorização do real voltou a preocupar, tendo a taxa de câmbio real efetiva calculada pelo IBRE valorizado 5,4% entre dezembro de 2011 e final de fevereiro passado. Novas medidas de controle do ingresso de capitais foram adotadas, mas, como a valorização do real não está inteiramente sob o controle governamental, outras iniciativas vêm sendo tomadas para atender demandas de setores selecionados.

Assim, se 2011 foi um ano em que a questão inflacionária pautou a agenda econômica, 2012 se inicia como o ano em que os rumos do câmbio e dos fluxos de comércio (e seus efeitos na indústria doméstica) tendem a dominar a agenda de preocupações do governo. Há que atentar, porém, para o efeito colateral que a limitação do acesso ao financiamento externo pode ter sobre o nível de atividade e o investimento, em particular nas empresas industriais de médio porte.

Ainda no setor externo, a queda nos preços das commodities, o menor crescimento da China, as condições econômicas desfavoráveis na maior parte da Europa e uma leve recuperação da economia estadunidense influenciaram os resultados da balança para o primeiro bimestre do ano.

O panorama internacional não estaria completo sem uma menção ao “tsunami” monetário do mundo avançado e às mudanças na China, que terá uma alternância de comando este ano. As reuniões anuais do partido, aliás, definiram as metas para a política econômica de 2012 e avaliaram o andamento das reformas estruturais. Os objetivos para a inflação foram mantidos, mas a meta de crescimento foi reduzida de 8% para 7,5%, o que não quer dizer que as autoridades vão aceitar que a atividade continue se desacelerando rapidamente — os 7,5% devem ser interpretados como um piso. Quanto às reformas, há um reconhecimento de que é preciso avançar na transformação do modelo de “capitalismo estatal” chinês, conforme recente relatório do Banco Mundial encomendado pelas autoridades do país.

Nosso Observatório Político se ocupa da aparentemente surpreendente aprovação na Câmara dos Deputados do projeto de lei que cria o fundo de pensão dos servidores públicos federais (Funpresp). A surpresa se justifica pelo massivo apoio do PT à proposta que cria esse fundo, em que pese a histórica oposição de seus membros à iniciativa, que vinha inviabilizando uma reforma desse tipo desde o início da década de 1990. O projeto agora segue para a apreciação do Senado e depois, se aprovado, para a sanção presidencial. Não são antevistas dificuldades nessa área, dada a folgada maioria da coalizão governamental no Senado. Entretanto, o PMDB poderá se utilizar dessa oportunidade e condicionar o seu apoio no Senado a um tratamento mais proporcional ao seu peso no Congresso.

Finalmente, a seção Em Foco apresenta as projeções do IBRE para 2012, a partir dos resultados do modelo macroeconométrico do Instituto. Como assinalado, não se espera crescimento muito elevado. O baixo carregamento estatístico para este ano, de 0,3%, reduz um pouco mais nossa previsão de crescimento: de 3,1% no Boletim anterior para 3,0%. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias e o investimento fixo permanecem como os principais componentes de sustentação do crescimento. O setor externo continuará a contribuir negativamente para o crescimento do PIB, mas em uma magnitude menor do que vinha acontecendo.

Em nosso cenário o Banco Central continuará com a política de afrouxamento monetário. A taxa Selic atingirá 9,0% ao final de 2012 e isso implica que o trade-off entre crescimento e inflação no Brasil tem piorado. Ou seja, o país crescerá menos que no passado recente, mas a inflação ainda continuará pressionada. Aliviar esse trade-off representa um grande desafio, do ponto de vista da tomada de decisões de política econômica.

Nesse sentido, acreditamos que há o risco de que o Banco Central venha a se defrontar na virada do ano com um difícil quadro de “estagflação”, entendido como uma combinação de crescimento abaixo de 3% e inflação no teto da meta, como de fato já ocorreu em 2011. Esse cenário pode se materializar se a redução em curso nos juros reais falhar em acelerar o crescimento da indústria, enquanto estimula o setor de serviços e construção, nos quais, dado o patamar muito baixo de desemprego, esses estímulos podem pressionar mais os preços do que ampliar o nível de atividade. Uma eventual aceleração do crescimento na China e nos EUA, sem que a elevada liquidez internacional seja enxugada, pode pressionar o preço das commodities e introduzir um componente adicional de inflação importada.

* Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.


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