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   ANTONIO MACHADO
 

US$ 8,32 é o salário-hora na indústria aqui. Na China, US$ 1,36; Índia, US$ 1,17. Como competir?

 

Pesquisa do Bureau of Labor Statistics, dos EUA, desfaz as ilusões de que se possa tirar a diferença apenas com o câmbio

11/3/2011 - 16:47 - Antonio Machado
 

 A questão cambial está de volta. O Ministério da Fazenda criou a expectativa de que poderá adotar novas ações contra a valorização do real, aliando-se às apreensões do Ministério do Desenvolvimento com as crescentes importações industriais, sobretudo da China.

 Câmbio é uma medida relacionada com a perda de competitividade da produção industrial, e tem a ver não apenas com os fatores mais costumeiramente arguidos como causa da apreciação do real, como os juros e a carga tributária muito acima das vigentes em países que competem diretamente com a produção nacional, além da precariedade e custos altos da infraestrutura de transportes e energia.

 Não é barato produzir no Brasil comparado ao custo de produção em países como a China, Índia e outros asiáticos, os vilões imediatos do deslocamento da produção brasileira aqui e em mercados onde até há pouco reinava o selo “Made in Brazil”, como a Argentina. É uma situação que dificilmente será revertida apenas com câmbio amigo.

 A pesquisa anual do Bureau of Labor Statistics, órgão de pesquisa do Departamento de Trabalho dos EUA, sobre o custo horário da mão-de-obra na indústria, incluindo encargos sociais, nas 34 maiores economias do mundo, mais China e Índia (ambas tratadas à parte por questões metodológicas), desfaz quaisquer ilusões.

 O custo-hora do trabalho na indústria brasileira em 2009, último ano com informações disponíveis em nível global, foi de US$ 8,32, ou R$ 16,64, representando a 30ª posição neste ranking de 34 países, liderado pela Noruega, com custo-hora de US$ 53,89.

 Entre as potências industriais da velha ordem da economia global, o custo-hora do salário na indústria foi de US$ 46,52 na Alemanha, US$ 33,53 nos EUA e US$ 30,36 no Japão. Abaixo do Brasil vem outro vilão do custo industrial baixo, Taiwan, com US$ 7,76, seguido de Polônia, US$ 7,50, México, US$ 5,38 e Filipinas, US$ 1,50.

 Ok, mas qual seria esse custo na China, ou na Índia, que lhe vem logo atrás, diminuindo a vantagem a cada ano? O estudo do BLS faz algumas ressalvas. As estatísticas da China sobre o emprego e os salários na indústria “não seguem padrões internacionais e podem ser de difícil compreensão”. Já na Índia, o emprego informal, que o BLS não considera, representa cerca de 80% da mão-de-obra total empregada pela indústria, o que subestima o salário efetivo.

 Feita a ressalva, sente-se confortavelmente e leia: o custo-hora do salário nas indústrias chinesas é de apenas US$ 1,36 (dado de 2008). Como competir assim, ministro Fernando Pimentel? E quanto o real deveria ser desvalorizado, ministro Guido Mantega?

O cafezinho vale mais

 A situação na China já foi pior. Em 2003, o custo-hora do salário na indústria era de apenas US$ 0,62 (e US$ 3,25 no Brasil). De lá para cá, a hora paga aumentou 119%, o suficiente para que muitas indústrias, sobretudo dos ramos têxteis e de brinquedos, migrassem para países ainda mais iníquos, como Vietnã e Bangladesh.

 O governo chinês anunciou que o aumento do consumo doméstico é a prioridade do novo plano quinquenal até 2015, mas isso será feito aos poucos, já que implica valorização dos salários e do renminbi. E tem a Índia ao seu lado com salários vis, US$ 1,17 o custo-hora, 44% acima do que era em 2003. Mas, na média, de centavos de dólar.

O absurdo brasileiro

 A pesquisa do BLS dá razão ao consenso entre governo, sindicatos e empresários sobre o absurdo peso dos encargos sociais na folha. O Brasil lidera o ranking mundial neste quesito, com os encargos (sendo o grosso a contribuição para o INSS) representando US$ 2,70 do custo-hora, ou quase um terço do que é pago ao trabalhador.

 Nem na rica Noruega, exemplo de bem-estar no mundo, o desconto em folha é tão alto. Lá, onde tudo funciona com altíssima qualidade, equivale a 18%. Aqui, nenhum serviço público funciona direito para que custe tão caro. Na Ásia, o seguro social é inferior a 20%.

O viés antiexportador

 Os números do BLS permitem muitas ilações. Uma delas emerge com a evolução do custo-hora no Brasil. De 2002 a 2009, aumentou 168% em dólar e 83% em reais, contra 24% nos EUA, 68% em dólares e 14% em euros na Alemanha (país em que a produtividade elevada se dá sem arrocho salarial) e 240% (dólares) e 312% (em pesos) na Argentina.

 Tal evolução sugere que aqui a expansão do mercado interno teve precedência sobre a exportação, ainda que o custo hora em 2009 em relação aos EUA (24,82%) fosse menor que em 1996 (32,53%), véspera da maxidesvalorização do real. Esse viés antiexportações foi muito longe para agora se querer tirar só com o câmbio a diferença.

Câmbio está no córner

 Entre o maior (1996) e o menor nível (2002) do salário-hora pago pela indústria no governo FHC, segundo a pesquisa do BLS, houve uma queda de 57% em dólares e aumento de 25% em reais. Pelo mesmo critério levado ao governo Lula, houve aumento de 156% em dólares e 66% em reais.

 A passagem do câmbio desvalorizado no período FHC, quando a prioridade era a solvência externa, para o valorizado nos dois governos Lula, já sem crise externa (que só veio no final de 2008, mas seguida do boom das commodities), explica um bom pedaço da reversão do viés exportador para a ênfase da demanda doméstica.

 Mudar essa relação por meio do câmbio implica corroer os salários sem compensar a inflação nos ajustes anuais. Isso seria possível?


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